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Geral

*OS SANTOS*

Les saints arrachaient leurs auréoles.
     (Dubois)

Viam-nos caminhar, exilados da luz,
As grandes povoações, as rochas, as paisagens.
E os corvos, os fieis amantes das carnagens,
Estos magros heroes, paladins de Jesus.

Andavam rotos, vis, os pés chagados, nús.
Finavam-se a rezar ante as santas imagens,
E ouviam-nos bradar no meio das folhagens:
--Ó arvores em flor! vós sois esquife e cruz!

VELHA FARÇA

Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco
D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel!
Vão ver passar na rua um velho saltimbanco
E uma féra que dansa atada a um cordel.

Ó funambulos vis, comediantes rotos,
O vosso riso alvar agrada á multidão!
E quando vós passaes o archanjo dos esgotos
Atira-vos a flôr que mais encontra á mão!

Lá vae tudo a correr: são as grotescas dansas
D'uns velhos animaes que já foram crueis
E agora vão soffrendo os risos das creanças
E os apupos da turba a troco de dez réis.

O matrimonio

De banza a tiracollo e capa á trovador,
Eu nunca fui cantar endeixas amorosas,
Lyrismos de Romeu junto aos balcões em flor,
Por sob o luar dormente e as nuvens vaporosas.

Tão pouco tenho a linha airosa, aristocrata,
Da fina flor do tom, os dandys adamados
Que andam pelos salões, monoculando, á cata
D'um dote que lhes salve a pança de cuidados.

Tenho, como qualquer, a aspiração ideal
D'uma noiva gentil, d'um ninho conjugal;
Mas tudo se desfaz se penso um só momento

*Menino e Moço*

Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus S.^{ta} Aguia, linda fada,
Que d'antes estendia as azas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz d'essa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa vizão de luar que vivia encantada,
N'um castello de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

LYRA III.

De amar, minha Marilia, a formosura
Não se podem livrar humanos peitos.
Adorão os Heróes, e os mesmos brutos
Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.
Quem, Marilia, despreza huma belleza,
    A luz da razão precisa,
    E se tem discurso, pisa
A Lei, que lhe ditou a Natureza.

O albatroz

Às vezes no alto mar, distrai-se a marinhagem
Na caça do albatroz, ave enorme e voraz,
Que segue pelo azul a embarcação em viagem,
Num vôo triunfal, numa carreira audaz.

Mas quando o albatroz se vê preso, estendido
Nas tábuas do convés, — pobre rei destronado!
Que pena que ele faz, humilde e constrangido,
As asas imperiais caídas para o lado!

*Forget me not.* (não me esqueças)

      Não te esqueço, florinha humilde e bella
      Que tornas a campina um firmamento,
      Innocente, sublime bagatella,
      Joia viva, risonho monumento.

      Não sei que poesia encontro n'ella,
      Que instilla em roda ethereo, vago alento
      Tão breve, tão discreta, tão singela,
      Qual pyrilampo, o nitido portento.

      N'essa titilação fosforescente,
      Lagrima-esmalte da urze tão subtil,
      Abrandas as escarpas da torrente

Oh sim!--rude amador de antigos sonhos

Oh sim!--rude amador de antigos sonhos,
Irei pedir aos tumulos dos velhos
Religioso enthusiasmo, e canto novo
Hei-de tecer, que os homens do futuro
Entenderão; um canto escarnecido
Pelos filhos dest' epocha mesquinha,
Em que vim peregrino a ver o mundo.
E chegar a meu termo, e reclinar-me
Á branda sombra de cypreste amigo.

MUNDO INTERIOR

      Materia ou Força, Lei ou Divindade
      Quem quer que seja que dirige o mundo,
      Esparze em tudo o espirito fecundo
      Do Summo Bem--Belleza, Amôr, Verdade.

      Á luz d'esta Santissima Trindade,
      Cercado d'esplendor, clamo e jucundo,
      Sorri-me em volta o universo; ao fundo,
      Por synthese Suprema, a Humanidade!

      Dos homens rujam temporaes medonhos...
      Que em mim, no meu labôr, do Bem sedento,
      Meus dias correm limpidos, risonhos!

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