Lagrima celeste

    Lagrima celeste,
    Perola do mar,
    O que me fizeste
    Para me encantar!

    Ah! se tu não fosses
    Lagrima do céo,
    Lagrimas tão dôces
    Não chorára eu.

    Se nunca te visse
    Bonina do val,
    Talvez não sentisse
    Nunca amor igual.

    Pomba desmandada,
    Que é dos filhos teus,
    Luz da madrugada,
    Luz dos olhos meus!

    Meu suspiro eterno,
    Meu eterno amor,
    D'um olhar mais terno
    Que o abrir da flôr,

    Quando o nectar chora,
    Que se lhe introduz,
    Ao romper da aurora,
    Ao raiar da luz,

    Por entre a folhagem
    Onde mal se vê,
    Como a terna imagem
    Da que eu adorei.

    Que esta voz te enleve,
    Que este adeus lá sôe,
    Que o Senhor t'o leve,
    Que Deus te abençôe.

    Que o Senhor te diga
    Se te adoro ou não,
    Minha dôce amiga
    Do meu coração!

    Se de ti me esqueço,
    Se já me esqueci,
    Ou se mais lhe peço,
    Do que vêr-te a ti;

    A ti que amo tanto
    Como a flôr a luz,
    Como a ave o canto,
    E o Cordeiro a cruz,

    E a campa o cypreste,
    E a rola o seu par,
    Lagrima celeste!
    Perola do mar!

Coimbra.

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