Perseverança do dia. Caso 05.

P.D. Caso 5.
 
A guria é candente, sexo, com qualquer idade, a idade, não fala. Usa roupas folgadas, decotadas e tem um ar de despojo. Senta confortavelmente com as pernas abertas e a coluna dobrada, me encara por olhos e cheiros, me sufoca a jugular. No silêncio da reação, o que é ruim é o outro, desintegra quem resiste, quem não resiste permanece sem permanecer.
Pergunto o que lhe faz mal, o que ressente. Gira o pulso para o alto e oferece as nobres linhas cicatrizadas como herança de si mesma. Dentro do que não é, sou eu, o fracasso sem memória ou rancor, um processo abortado de experiência civilizatória. Sem valores nem cristais, nem cristais de valor, nem valor em cristais. Quem é o predador que conquista o passado?
Existem eras e guerreiros, nossa raça. Daqui a alguns anos lhe chamarei para sair, com um misto de arrependimento, ansiedade e um profundo amor cultivado no receio de amar. Daqui a alguns anos lhe amarei, assim como o faço hoje, mas o peso da não realização, a solidão egoísta e voraz, irá compelir minhas súplicas ante um peso que não conseguirei mais suportar. Daqui a alguns anos será tarde demais. Assim como agora é cedo demais. O tempo da correspondência se ilumina somente uma vez para depois fechar-se para sempre. A trilha é escura para ambos, ela assim é devido à resistência em se abrir por completo, sem se importar com o momento certo, perdido entre as dúvidas.
É poeta?
Quem não é, decadente, metal de ouro, prata e bronze. Ou mesmo o ferro imundo dos carvões e do aço. Todos moldados pelo calor da cultura e do rebanho.
Animal doméstico certo. Que pela contenção de impulsos quer uma resposta, quer aquilo que tudo responde. Não se pode ter meia resposta, resposta de algo que não seja resposta de outra coisa. Assim como não se pode ter meio infinito ou meio absoluto. A resposta é sempre uma e a tudo responde, onisciente. E ela pode ser uma pergunta. O que importa é o significado, não o conteúdo.
Me honra com sua hierarquia, e quer servos para fazer política de atrito. Uma diplomacia comercial cuja referência seja mais que fonte, seja proveniência. Assim como células são o mesmo que um conglomerado de bactérias em cooperação, cada qual indispensável para o todo e para cada uma. Uma vida pluricelular é o mesmo que bactérias em harmonia. Uma molécula é o mesmo que átomos em harmonia, quer seja essa harmonia a interação, quer seja a interação da interação. Aquilo que compõe os átomos é a sua forma total, suas partículas completas em si e no todo, todas as suas possibilidades, desde o menor ao maior fluxo, sendo cada qual uno e o mesmo, indiferente e apreendido como o todo no total. Mas mesmo assim deseja dominar.
Não quer ser dominada?
Não discordo, na liberdade e no acidente instável do imutável, a construção na história da metafisica me faz diversa e com vontade. Posso me levantar, caminhar alguns passos, correr meus dedos pelo seu cabelo e puxar sua cabeça para traz. Quer ser uma força natural dos instintos?
Sua ação por si tem um afeito por si, cada qual livre de lastros, completos, a sedução da linguagem não oblitera a transmissão de seus erros no acaso e no devir. Manifesta sua dinâmica com a língua e a censura com os espasmos musculares. Se faz sujeito à culpa, assume a responsabilidade e a negação da potência.
Não, a vida valora por ser vida, mas não aniquila, se quer um sujeito, negue a si mesmo e não os outros.

 

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