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As voltas do dinheiro ao serão

Histórias lá da aldeia - As voltas da nota

Existe lá na aldeia, uma albergaria centenária, negócio de gerações da família Modesto.

Modesto Junior, o proprietário atual, de cima da sabedoria amealhada ao longo dos seus oitenta anos, criava raizes lendo o jornal da terra,
Espiga Falida, na mesma cadeira onde o seu pai e seu avô, haviam rebolado os respetivos e honrados trazeiros, aguardando a chegada de
hipotéticos viajantes que procuram guarida.

Naquela sexta-feira, estando o nosso amigo Modesto entretido em pensamentos da sua juventude, entrou um senhor bem vestido e de afável trato.
Procurava um quarto. Coisa rara nos ultimos tempos.

"Cinquenta euros caro senhor! Sim e não é muito, afinal são duas sossegadas noites e com o quarto até tem acesso ao bidé, um luxo,
e direito a penico debaixo da cama incluído na limpeza diária o seu despejo."

Como as alternativas estavam a vinte quilómetros de distância, o distinto senhor aceitou dar uma espreitadela pelas instalações
deixando a nota de 50 euros em cima do balcão, na tacinha de estanho colocada para o efeito, reserva de cama,
dizia o Modesto como se a clientela sobrasse.

O amigo Modesto em velocidade moderada fez-se acompanhar do "seu" hóspede subindo as escadas pulidas à mão,
como é timbre da terra, para apresentar os aposentos sugeridos.

Dona Matilde Modesto Junior, proprietária e mulher atenta que tinha o hábito de gerir as contas da casa espreitando atrás da porta,
começou logo a inventar, como é apanágio das senhoras, uma forma de se afiambrar aos ricos cinquenta euros.
Dias antes, tinha comprado a crédito, como era comum, um vestido prá procissão de Nossa Senhora, afinal a festa era só uma vez por ano.

Dito e feito. Agarrou a nota e imediatamente entrou na loja do Alfredo, três portas abaixo, na mesma faceira.
Com ar triunfal e de uma estocada liquidou a malfadada dívida, agora nada lhe tiraria o seu vestido de gala.

O Sr Alfredo, homem brioso que vendia desde meias a "pitroli" ao litro, respirou de alívio quando viu entrar o Zé Inocêncio,
seu fornecedor de fruta desde a abertura da casa. Produto biológico, na moda, regada com a aguinha do céu.
Pagou a pronto e com desconto, as caixinhas de laranjas da Vidigueira, cinquenta euros era bom negócio.

Tal como se tinha comprometido, Zé Inocêncio saiu da loja do Alfredo desceu a rua a trote e sem perder tempo entrou na oficina do Chico,
mecânico, eletrecista-auto, bate-chapas e fornecedor de pneus para todo o tipo de veiculos, incluindo os de tracção animal,
com a secção de ferraduras forjadas à medida da pata da besta. A divida que rondava os cinquenta euros, do tamanho da sua nota,
estava paga porra. A sorte é que só precisava de pastilhas novas uma vez por ano, na camioneta claro.

Mestre Chico mecânico, viuvo, sem filhos e sem contas para dar a ninguem, tinha o hábito, muito de vez em quando,
de ir mudar o óleo à casa da Palmira Silva, necessidades. Sabia que era pecado, mas um homem não é de pau.
O problema era sempre o mesmo, as necessidades eram maiores que o dinheiro e ficava sempre um restinho de prazer em divida.
Mas pagava, pelo menos na palavra nunca falhava.

E pagou, entregou à desejada mulher os cinquenta euros gozados, combinando logo nova visita.

Cinquenta euros por sessão. Sem modernices, apesar de tudo a Palmira era uma mulher de principios, e o cínico do Modesto,
talvez pela impotência dos anos passados com o cu na cadeira, ou por medo da D Matilde e dos seus cento e tal quilos, não lhe perdoava.
Cinquenta euros o quarto, com respeito e sem alaridos na albergaria, casa de familia, já lhe fazia um grande favor em a deixar levar os seus "clientes".

Palmirinha entrou na albergaria do Modesto Junior, fez sinal à D Matilde, especada atras da porta, seu posto de trabalho,
e deixou os cinquenta euros em cima do balcão. Pagou os aposentos utilizados, despedindo-se com descrição da D Matilde que
lhe retribuiu com pequeno gesto de entendimento.

Modesto Junior desceu as escadas, pausadamente, na esperança de ter convencido o ilustre cavalheiro a alugar o quarto,
o bidé e o respetivo recipiente para eventuais necessidades noturnas.

"Registamos então a estadia não é?" De caneta de tinta permanente em punho esgrimindo sorrisos de argumentos, falava o Modesto.

"Não, está tudo muito bem, mas aquela televisão a preto e branco em dia de futebol não me convence."

Arrecadou a nota, que por magia desapareceu no bolso da lapela do fato do Senhor afavél que cordialmente se fez à estrada
na esperança de ainda ver o inicio do jogo.

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Comentários

É lindo demais!

Eu quero mais!!!

wink