O BOM PESCADOR.
O sol rubro, em leito
De nuvens descendo,
Tremente, crescendo,
No mar se ia a pôr.
Sentado no barco,
Que a onda embalava,
Scismando cantava
O bom pescador.
A paz da sua alma
No olhar exprimia,
E a voz traduzia
Scismar do cantor:
E o canto sereno
Levava-lho a brisa,
Que á tarde deslisa
Com meigo frescor.
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«Acabem de todo
No prado as boninas,
E em vastas campinas
Não surja uma flor;
Dispa-se o ameeiro
Da folha viçosa,
E o Tejo em lodosa
Mude esta azul côr;
O vento gelado
Só reine e as procellas;
Das vivas estrellas
Se apague o fulgor:
O sol radioso
Em nuvens se envolva,
E á terra não volva
Seu grato calor;
Que do horrido inverno,
Comtigo, oh serrana,
Na minha choupana
Rirei do furor!
Não pensa se as veigas
Se vestem de relva,
Se está nua a selva
Do lindo verdor;
Nem ouve os rugidos
Do vento inquieto
Quem, sob o seu tecto,
Se abriga no amor.
Nasci, eduquei-me
N'um mundo mais nobre,
Agora sou pobre,
Sou um pescador.
Ás bordas do abysmo
Chegou-me a ventura;
Medí delle a altura,
Descí sem pavor.
Co'a dita se enlaça
Humilde existencia,
Se do homem a essencia
O orgulho não fôr.
Emquanto de paços,
De ferteis devesas,
Emfim, de riquezas
Eu pude dispor,
O somno tranquillo
A mim não descia,
Que o ferro temia
Do vil salteador.
Na minha alma, immersa
Em noite e amargura,
Pesava bem dura
A mão do Senhor!
Agora misturo
Do rude oceano
Nas vagas, ufano,
O honrado suor;
Agora sereno
Vem dia após dia,
E a noite sombria
Não cerca o temor;
Porque entre teus braços,
Esposa querida,
Me esqueço da lida
Do mar bramidor.
Da vida no sonho
Que importa vil ouro,
Se tu és thesouro
Perpetuo de amor;
Se ainda em teus labios,
Oh cara consorte,
Virá doce a morte
Minha alma depor?
Nas ribas fragosas,
Que os ventos castigam,
E as ondas fustigam
Com longo fragor,
Ao pé da ermidinha,
Nesse adro tão só,
Envoltos no pó,
Sem goso, sem dôr,
Tranquillos, obscuros,
Privados de luz,
Á sombra da cruz
Do Deus Redemptor,
De ti só lembrados,
Em triste oração,
Os restos serão
Do teu pescador.