Á MORTE

 

DO MEU AMIGO LICINIO F. C. DE CARVALHO


Morreste, amigo, partiste
D'esta mansão passageira!
Bem depressa da carreira
Tocaste a méta fatal!
Com a folhagem dos bosques
Gelou-te o vento do outomno,
E dormes o longo somno
Do teu leito sepulchral!


Já tua mão extremosa
Não aperta a mão do amigo
Que tantas vezes comtigo
Em sonhos vãos delirou.
No seio da fria terra
Já não me escutas nem fallas,
Contando lutos ou galas
Do teu viver que passou.


Oh! quantas vezes, immersos
N'esses intimos enleios,
Que fazem um de dous seios,
Sentimos horas fugir!
Quantas, sonhando horisontes
De poesia, amor, ou gloria,
N'uma expansão transitoria
Creamos longo porvir!


E morto jazes, ai! morto,
Sem poder de teus anhelos
Realisar os sonhos bellos,
Cruzar a vasta amplidão?!
Morto sem ter dito ao mundo
A palavra augusta e sancta
Que a turba anciosa espanta,
E que é do genio o condão?!


Morto á luz da tua aurora
Sem que á luz da tua sesta
Podésses, na hora funesta,
Sorrir ao passado teu?!
Morto, ai, morto sem ter ganho
Mais lagrimas de saudade,
Tão doces á soledade
D'aquelle que já morreu?!


Deus! se a vida é campo ameno
Onde se vem colher flôres,
Porque, do sol aos fulgores,
Não se hão de as flôres colher?
Se é deserto ingrato e rude,
Onde não brota uma fonte,
Porque ha de em nosso horisonte
A luz do dia nascer?


Mas dorme, descança, amigo,
Que a vida é o deserto ás vezes...
Estrada de mil revezes,
E de voragens fataes...
E que é o poeta? o viajante
Que fere os pés nos abrolhos,
Em quanto levanta os olhos
Ás regiões divinaes.


Ave estrangeira que passa
N'este clima procelloso,
Com seu canto mavioso
Levando as turbas d'apóz;
Mas que chora de saudade
Por sua patria querida,
Té que a final abatida
Cahe sem alento, e sem voz.


Descança! no frio leito
De teu eterno repouso,
Não te irá o sol formoso
Cada manhã despertar;
Mas tambem, da aurora á noite,
Não calcarás os espinhos
Que em teus agrestes caminhos
Verias da flôr a par.


Lá não irão festejar-te
Ruidosos echos do mundo,
Que dizem, no som profundo,
Qual é do genio o poder;
Mas tambem tuas corôas
Não regarás com teu pranto,
Nem a inveja em negro manto
Tua estrella ha de envolver.


Descança! que digo! surge!
Ergue-te á luz, ó poeta,
E revôa aonde inquieta
Te levava a inspiração!
Sonhaste mundos brilhantes,
Sonhaste amor e poesia:
No paiz do eterno dia
Vae colher teu galardão!


Vae! das plagas do desterro
Eis-te a final resgatado:
Procura regenerado
A patria que te sorri!
Lá terás as harmonias
Que soltam milhões d'espheras,
E florentes primaveras
Quaes não terias aqui.


Lá gosa! lá, sacudido
Sobre a terra o terreo manto,
Desprende teu novo canto
De novos soes ao fulgor!
E, se lá póde chegar-te
Esta nota de saudade,
Escuta a voz da amizade
Entre os mil hymnos do amor!
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