Aeroporto de sombras

Há sombras de aviões altos no chão espelhado
e, nos pés, sinto a fúria trepidante dos voos
rasgados (rasantes!) das memórias inventadas
em sonhos que ainda viajam pela minha cabeça.

Por vezes, paro no meio dos degraus
das escadas que elevam os viajantes à partida;
olho à volta e é como se sorvesse cada gesto demorado,
cada medo inconfessado, cada arfar de saudade
incontida no olhar húmido de tanta gente.

Outras vezes, se paro, vejo-te. E imagino que me sorris.

Os aeroportos são lugares curtos invadidos por sensações.
E eu gosto de aqui estar: evadida das sensações
incoerentes e contritas que me vivem fora daqui.
As sombras dos aviões entrelaçam-se nas sombras
do meu pensamento e voam alto rumo a magníficos
destinos longínquos, fora e dentro de mim.

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