Aqui Jaz Uma Vida

E quando aqueles dia há
em que nos encontramos perdidos,
sem nada que nos entretenha
ou nos ocupe o pensamento?
Nessas alturas apraz-me fumar
orgulhosamente um ocioso cigarro,
com a desculpa ilusória de que mata
a pasmaceira em que ando submergido.
Saco, delicadamente, o palito nicotínico
enquanto exclamo aos meus botões:
"Mais um prego para o caixão!"
Com a outra mão estalo a tampa do zippo,
Mola aguda que, simultaneamente, me estala o pensar
com a consciência da finitude irrevogável.
Acendo penosamente o cigarro.
Aos poucos, o charuto vai-se consumindo
ao ritmo das minha baforadas,
como que a imitar o esvair dos meus dias,
ciclicamente marcados pelo toque de despertador.
Apercebo-me mais uma vez da minha finitude,
"É assim a vida!" (Ou será antes a morte?)

Entretanto, o fumo do tabaco
vai-me tornando amarela a existência.
A fumaça desce-me pela garganta
tal e qual insuflasse minha própria alma.
Do mesmo modo, vagaroso, a exalo
ao jeito do meu espírito a abandonar-me,
expiando assim todos os meus pecados.
Sai de mim o vapor escuro, deixando apenas
no meu cadáver o negro do alcatrão,
fuligem essa que já nem se distingue
da negrura do meu próprio ser.
Morre-se-me o cigarro na ponta dos dedos.
Com desprezo, lanço o míssil da beata ao chão,
desprezo manifesto do meu próprio existir.
A ponta da minha bota ao encontro vai
da ponta incandescente da pirisca finda
(Toque de dedos de uma Criação de Adão tabágica).
Esmago o que resta da cabeça do cigarro
que encorpora o que resta do meu orgulho ferido.
Acaba-se mais uma pausa mortificadora,
reacende a pausa maior do marasmo.

Aqui jaz um filtro, aqui jaz uma vida.

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