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Autorretrato

Autorretrato

 

Com as palavras não se conta.

Estimo memórias viajoras sob a pele, materiais ocultos retidos da infinita jornada, que um dia habitaram templos acedidos por passadouros verdes. Longos como corredores sem luz, líquidos em intermináveis funduras.

Não enumero. Para a dança crónica dos tempos mortos entre abraços, não se arriscam algarismos. E com as palavras, definitivamente, não se pode contar.

Ver a música. Estruturas de canções: há-as carregando eternos nomes impróprios, apensos aos originais. São como cheiros que se tornam material de imagem. Rodízios perros por onde deslizam cadeias, registos de retratos desfocados, sépia de um minuto, e grafismos sem assinatura.

Quase muito sobrepuja a memória vácua dos sonhos vistos. Tal  como em sonhos dormidos, são recordados pela mecânica indecifrável das regras ocultas. O que fica, nem sempre é documento. A reconstituição de textos incompletos não pode ser fiável. Declaro gestos vagos, palavras soltas, enredos esfiapados, malhas caídas em tecidos fragilizados pelo uso de imagens ociosas. Lugares de apagamento, são fotocópias em papel térmico do vivido. Meros incidentes registados na caixa preta.

Pergunto-me se relembro relevantemente quando o faço por planos sobrepostos. Palavras sem emissor, datas perdidas. No entanto, reconheço.

Unir materiais soltos de incompatível génese, dar-lhes forma. Ligo papéis vários pelos vincos, crio objeto quase único, memória mater de histórias de quando vivi. Edifício de solidez dúctil.

Sobram pedaços náufragos: serão migalhas cósmicas?

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