De Branco Pintadas as Paredes São

De branco pintadas as paredes são.
Monotonamente.
Mente monótona esta minha mente.

O relógio devora as horas
que passam quadradas pelo futuro.
E, branco, ladro e mio
e vida e morte invadem
o meu pensamento catarino.

Vi uma catedral sem cúpula sobre a sua nave
pintada na retina do meu olhar ciclópico,
à sombra do sol de meio-dia que tranluz
o som metálico do tempo parado.

Esquecido de si, Deus voava,
de mãos dadas com o Diabo:
pairavam sobre a minha cabeça,
cada qual segurando nos dentes podres
uma clepsidra de ouro.

E quando o ponteiro grande está no quarto,
mil virgens emergem da minha pele e nela copulam.

Ámen!

E quando o ponteiro grande está nos dois quartos,
eu toco o cheiro da tinta!

Ámen!

E quando o ponteiro grande está nos três quartos,
ouço o leite que escorre pelas paredes.

Ámen!

E quando o ponteiro grande procura o norte eu grito:
Mutunus Tutunus! Mutunus Tutunus!
Que todas as virgens se sentem sobre o falo erecto do seu deus!
Falo de pedra.
De que falo eu?

De branco pintadas as paredes são.
Monotonamente.
Sente-se monótona esta minha mente.

Pelo caminho nublado das estrelas,
solto os pássaros que se escondem nos teus cabelos
e passeio-os pelas concavidades do teu corpo.
Adormecem e eu com eles.

De que falo eu?

Sob o manto marmóreo do sonho
flui a torrente da realidade líquida,
fervilha o excesso que queima a pele
e a rasga de dentro para fora.

Contemple-se:
uma pantera e um tigre deitados,
num abraço num beijo num orgasmo,
numa cama de flores e de grinaldas,
mergulhando no esquecimento de si mesmos.
E como as feras o homem despido
cantando e dançando consigo mesmo (e com os deuses) -
porque todos os homens são ele mesmo (e são os deuses) -
deixa-se embriagar pela renovação da primavera.

Falo de pedra.

Quando o silêncio é corrido como uma persiana
hibernando as retinas queimadas na garganta do tempo,
invento ritmos outros que não sei reproduzir.

E cada linha é uma liberdade por libertar,
cada palavra um país por fundar,
cada som o choro primeiro dos universos -
o que me cerca e o outro, o que eu limito,
reflexo diverso do Eu, fronteira última de um jogo de espelhos
em que os olhos já não reconhecem o rosto
e onde os dedos são personalidades distintas ecoando:
quem são eu?... são eu?... eu?...

De branco pintadas as paredes são.
Monotonamente.
Mente-me monótona esta minha mente.

Há um vento cortante, vindo
da direcção do mar, nascido
nos pulmões do horizonte, que se enrola
como uma nuvem de névoa ao redor
dos membros lassos dos nossos sonhos,
e que se finge de brisa para nos beijar a nuca -
pelo lado de dentro.

Há um sítio secreto, desconhecido
até dos seus habitantes, em que flores
germinam onde deveriam ter crescido
pequenos tufos de pêlos púbicos
e o aroma onírico da terra confunde-se
com o cheiro primaveril de corpos submersos
em lagoas enchidas nas palmas das mãos -
pelo lado de dentro.

Há um sonho tão palpável como estas peças de roupa
que me secam o corpo na corda, ao vento do anoitecer,
vazias de quem as veste, pandas da solidão que as atravessa…
um sonho despido do seu sonhador, como uma peça
de teatro em que me observo a mim próprio -
pelo lado de dentro.

De branco pintadas as paredes são.
Monotonamente.
Gente monótona esta minha mente.

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