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A FONTE DOS AMORES

 

Eis os sitios formosos onde a triste
Nos dias d'illusão viveu ditosa;
Eis a fonte serena, e os altos cedros
Que os segredos d'amor inda lhe guardam.
Oh! quantas vezes, solitaria fonte,
Apóz longo vagar por esses campos
Do placido Mondego, n'estas margens
A namorada Ignez veio assentar-se,
E ausente de seu bem carpir saudosa,
_Aos montes e ás hervinhas ensinando
O nome que no peito escripto tinha!_
E quantas, quantas vezes no silencio
D'esta grata soidão viste os amantes,
Esquecidos do mundo e a sós felizes,
Nos extasis da terra os céos gosando!


Pobre infeliz Ignez! breves passaram
Os teus dias d'amor e de ventura.
Ao regio moço o coração rendêras,
E o que em todos é lei, em ti foi crime.
Eis do barbaro pae, do rei severo,
Se arma a dextra feroz, eil-o que aos sitios
Onde habitava amor conduz a morte.
Distante de teu bem, ao desamparo,
Ai! não podéste conjurar-lhe as iras.
Debalde aos pés d'Affonso lacrimosa
Pediste compaixão; debalde em ancias
Abraçando os filhinhos innocentes,
Os filhos de seu filho, a natureza
Invocaste e a piedade: a voz dos impios,
Dos vis algozes, te abafou as queixas,
E o cego rei te abandonou aos monstros.
Eil-os a ti correndo, eil-os que surdos
Aos ais, aos rogos que tremendo soltas,
No palpitante seio crystallino,
Que tanto amou, oh barbaros! os ferros,
Os duros ferros com furor embebem.
Prostrada, agonisante, os doces filhos
Por derradeira vez unes ao peito,
E de teu Pedro murmurando o nome,
Aos innocentes abraçada expiras.


Inda, infeliz Ignez, inda saudosos
Estes sitios que amavas te pranteiam.
As aves do arvoredo, os echos, brizas,
Parecem murmurar a infanda historia;
Teu sangue tinge as pedras, e esta fonte,
A fonte dos amores, dos teus amores,
Como que em som queixoso inda repete
Ás margens, e aos rochedos commovidos,
Teu derradeiro, moribundo alento.
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