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A NOIVA DO SEPULCHRO. (_Imitado do inglez_).

I.

Juncto da raia d'Hespanha,
  Em monte calvo e deserto,
  Vê-se um vulto negro ao longe,
  Castello é, vendo-se ao perto:
Mas castello derribado,
  De bons tempos, de outras eras,
  Hoje abrigo escuro e triste
  De reptis e bravas feras.
Foram formosos e fortes
  Esses muros derrocados,
  Por onde trepam as heras;
  Que cingem bastos silvados.
A voz delrei nelle tinha
  Nobre alcaide dom Sueiro;
  Nobre por sua linhagem,
  Nobre por bom cavalleiro.
Noivados, torneios, festas,
  Ninguem sem elle fazia:
  Ninguem, sem o convidar,
  Ajustava montaria;
Que nunca da sua bésta
  Viróte partiu em vão;
  Como nunca os justadores
  O viram perder o arção.
Mulher, que elle muito amara,
  Lh'a roubara a sepultura;
  Mas por este golpe o alcaide
  Não mostrou grande tristura.
Até corria entre o povo
  Um mysterio de maldade...
  Suppunham uns ser mentira;
  Criam outros ser verdade.
Mas o que? Cubria a terra
  Esse caso mysterioso;
  E só o povo sabía
  Ser viuvo o que era esposo.

II.

Cedo se ergue dom Sueiro;
  Cavalga no seu cavallo,
  E para caçada alegre
  Passa áquem do extremo vallo.
Por essas margens do Lima,
  Debaixo de puro céu,
  O nobre senhor alcaide
  Á rédea solta correu.
Veredas segue torcidas,
  Até descubrir o outeiro,
  Que revestem pela encosta
  O zimbro, a urze e o pinheiro.
Soam sonoras buzinas,
  Ri do dia o lindo alvor,
  E no meio da paizagem
  Uma brilha e outra flor.
Dom Sueiro o seu cavallo
  Incita com ferrea espora;
  Que no logar aprazado
  Deve estar dentro de um' hora.
Nada lhe põe embaraço;
  Nem resonantes ribeiros,
  Nem as chans apaúladas,
  Nem escarpados outeiros.
Mas ao sair da floresta,
  Ainda perto do rio,
  Viu ir formosa donzella
  Buscando do ermo o desvio.
Celestes são seus meneios:
  Não mortal, anjo parece:
  Da sua tez a brancura
  Alva açucena escurece.
O seu corcel dom Sueiro
  Fez parar. Já se esquecera
  Da caçada; e que no monte
  Em breve estar promettera.
--Dizei-me vós, oh donzella,
  Quem sois, que nunca vos vi;
  Que por minha alma vos juro
  Sois já senhora de mi.»
Resposta nenhuma teve,
  Que ella não lhe respondia,
  E, sempre guiando ao valle,
  A curva senda seguia.
--Não me fugireis assim:
  Bofé que não fugireis!
  Um momento, um só momento,
  Dom Sueiro escutareis!»
Disse: desmonta, e persegue-a,
  Nos braços para a estreitar;
  Mas ella furta-lhe o corpo,
  E elle abraça o subtil ar.
--Dizei-me vós, oh donzella,
  Pela vossa alma dizei,
  De que procede tal susto,
  Que a meu pesar vos causei?
Que, pelos céus o asseguro,
  É verdadeiro este amor.
  Não me fujaes, bella dama:
  Não ha de que ter pavor.
De esposo, se vós quereis,
  Dar-vos-hei, contente, a mão:
  Sereis dona de um castello,
  Dona do meu coração.»
--Dom Sueiro, oh dom Sueiro--
  Tornou a dama formosa--
  Eu sei quem és, qual teu nome,
  E eu seria tua esposa:
Mas como crer nos teus dictos,
  Dictos de homem fraudulento?
  Conheço tuas perfidias,
  E qual é teu vil intento.
Dês que morreu dona Dulce,
  A tua infeliz mulher,
  A linda Elvira roubaste
  Para teu ludibrio ser.
Com promessas refalsadas
  Enganaste uma innocente.
  Quem crerá juras de um ímpio,
  Que só jura quando mente?
Ella te creu, desditosa!
  Porém não te creio eu:
  Nem, qual de Elvira o destino,
  Será o destino meu.
E como soffrera, esposa
  Tua sendo, uma rival?
  Folgáras tu nos meus zelos;
  Folgáras della no mal?
Ousáras tu, dom Sueiro,
  A pobre Elvira expulsar,
  E dias de angustia e pejo,
  Misera, vê-la tragar?--
«Oh, voto a Christo, que sim!--
  O nobre alcaide atalhou:
  E desfazer-se de Elvira,
  Com mil pragas, protestou.
--Mas dizei vós, dama linda,
  Quem sois? quem são vossos paes?
  Que eu vos direi de mim tudo,
  Se tudo me perguntaes.--
«Nunca!--tornou a donzella:--
  Quem eu sou não te direi.
  Nada te devo por ora:
  Quando dever pagarei.
Mas pódes estar seguro,
  Que, bem que nobre senhor.
  Não é que o meu o teu sangue
  Sangue de maior primor.--
«Pois sim, querida, pois sim!--
  Dom Sueiro proseguia;
  E algum signal de ternura
  Á bella dama pedia.
«Não, oh não, meu cavalleiro!
  Quando a mim te vir ligado
  Tua serei; que antes disso
  Fôra horroroso peccado.--
«Porém dizei-me, oh donzella,
  Onde vos hei-de encontrar?
  Que, pela cruz, ahi juro
  Nossas nupcias celebrar.--
«Oh, que não será de dia;
  Que mal de nós julgarão!--
  Tornou a dama--e os praguentos
  Certo de mim se rirão.
É pela noite que eu voto;
  De noite no cemiterio,
  Quando soar doze vezes
  O sino do presbyterio.
Sob o teixo solitario,
  Onde ninguem nos não veja;
  E aonde nunca chegar-se
  Quem passar ousado seja.--
«Vivam meus lindos amores!--
  Interrompeu dom Sueiro:--
  Sob o teixo, á meia noite?...
  Veremos quem vae primeiro.--
«Sim!--volveu ella--a ess' hora.
  Nenhuma fôra melhor;
  Porém, da tua palavra
  Que me darás em penhor?--
«Minha paixão em seguro
  Do que promettí te dou:
  Nunca promessas mentidas
  Fez quem devéras amou.
Curvando o joelho, eu juro
  Teus grilhões sempre rojar:
  Meu corpo e alma são teus;
  E o tempo o ha-de provar.--
«Basta!--a donzella lhe disse.--
  Dom Sueiro, sou contente.
  São meus teu corpo e tu' alma:
  Meus serão eternamente.--
Dicto isto, ao longo do rio
  Ligeira a senda seguiu,
  E elle aos outros caçadores
  Alegre se reuniu.

III.

Já da larga montaria
  O folguedo se acabava,
  E dom Sueiro ao castello,
  Ao seu castello voltava.
Arde-lhe na alma o desejo
  Com as imagens do goso,
  E róe-lhe idéa damnada
  O coração criminoso.
Infeliz e linda Elvira,
  Nos dias da juventude,
  Perdera nos braços delle
  Flor de innocencia e virtude.
Mas gosos faceis não duram;
  Breve após o tedio chega:
  Elvira é já enfadonha:
  Novo amor o alcaide cega.
Cumpre de si afasta-la:
  O caso difficil é:
  Ajunctará crime a crime?
  Elle outro meio não vê.
Emfim decidiu-se: a morte
  Em aurea taça lhe deu.
  Nobre senhor, folgar pódes,
  Teu crime a terra escondeu!
Era noite: e dom Sueiro
  Para o adro ermo partia.
  Logar, horas ou remorsos,
  Nada terror lhe infundia.
Brilha a lua em seu crescente:
  Passa a noite silenciosa;
  E só lhe quebra o socego
  O mocho e a fonte ruidosa.
Ao cabo o adro elle avista:
  No meio o teixo lhe avulta:
  Não deu meia noite ainda;
  A dama ainda se occulta.
Mas troa o sino! Uma!... Duas!...
  Contou; contou: mais dez são:
  E uma donzella, de branco,
  Surge da lua ao clarão,
E está debaixo do teixo.
  Para lá o alcaide corre.
  Não enganou seus desejos
  Essa por quem elle morre.
Porém que é isto? Recúa?
  Para trás a face vira?
  Sim; que não era a donzella,
  Mas o phantasma de Elvira.
«Maldicto!--clamou o espectro--
  Pune a traição o traidor.
  Negro o sepulchro te espera.
  De teu mal és só o auctor.
Pensa, monstro, emquanto é tempo;
  Que não tardará teu fim.
  Teu nome apagou-se. Agora,
  Recorda-te bem de mim!--
Não disse mais; e esvaeceu-se.
  Dom Sueiro, espavorido,
  Fugiu: sem volver os olhos,
  Sem parar, sempre ha corrido.
Brilha a lua em seu crescente:
  Passa a noite silenciosa;
  E só lhe quebra o socego
  O mocho e a fonte ruidosa.
Á porta do seu castello
  Já dom Sueiro chegava.
  Alli, vestida de branco,
  Do bosque a donzella estava.
«Mal-hajas tu, cavalleiro:--
  Apenas o viu lhe disse:--
  O ter de mulheres medo
  É signalada pequice.
Fui eu que fiz de phantasma:
  Teu valor conhecer quiz.
  Tremer como tu tremeste
  É só proprio de homens vís.--
As faces do nobre alcaide
  De vermelho se tingiram;
  Mas voltou logo a ternura;
  Passados sustos fugiram.
«Vinde a meus braços, querida!
  Vinde: não vos detenhaes,
  Digna de ser minha esposa
  Só vós sois, e ninguem mais.
Neste sitio, hoje vos juro
  Amor firme e puro e ardente:
  Em corpo e alma sou vosso;
  Sê-lo-hei eternamente.»--
«Em corpo e alma!?--ella clama,
  Com uma voz sepulchral.--
  Certo será graciosa
  Nossa união conjugal!»
Então, qual bravo terçol,
  Que em sua presa poz mira,
  Ao mesquinho dom Sueiro,
  Abrindo os braços, se atira.
«Arredo! Filha do inferno!--
  Grita o alcaide.--Isto o que é?»
  Ai!... olhou... É dona Dulce,
  Não a donzella, quem vê.
Com os braços descarnados
  Ella o collo lhe estreitou,
  E os labios apodrecidos
  Aos labios delle chegou.
Mortal halito de serpe
  Seu halito assemelhava:
  Sua figura era horrivel:
  Tocada apenas gelava.
«Deixa-te agora de medos:--
  Disse o espectro a dom Sueiro.--
  Que é da audacia que mostravas,
  Audacia de cavalleiro?
Tremes?... De quê, assassino?
  Antes devêras tremer,
  Quando envenenaste Elvira,
  E a tua pobre mulher.
Meu amor e meus encantos
  Pouco tempo te prenderam:
  Em mim do sepulchro os vermes
  Por tua mão se pasceram.
Depois, a amar-me tornando,
  Repetiste um crime horrivel...
  Teu amor é frouxo sempre;
  Teu odio sempre terrivel!
Mas agora, odiada ou grata,
  Não sairei de teu lado:
  Nada quebra no outro mundo
  Dos mortos negro noivado.
Alma e corpo me cedeste:
  O corpo aqui dormirá:
  Porém tua alma comigo
  Mais longe se acolherá!»
Não lhe respondeu o alcaide,
  Que a morte empallidecera,
  E, ao som de arranco profundo,
  No chão, extincto, batera.
Mas contam 'inda os pastores,
  Que á meia-noite vagueia
  Nas margens do ameno Lima,
  Que murmurando serpeia;
E que, gritando e gemendo,
  O seguem duas figuras,
  Ambas com brancos vestidos
  E tisnadas cataduras.

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