*NOVA BALLADA DO REI DE THULE*

N'um paiz nada visinho...
Em Thule até mui distante,
Houve outr'ora um rei farçante,
Um rei amigo de vinho.

Quando sua amante fiel
Mimosa e cheia de graça,
Morreu, deixou-lhe uma taça
Que semelhava um tonel.

Era tamanha a grandeza
Da taça que nada iguala!
--Ficava sempre ao esgotal-a,
El-rei debaixo da mesa.

Quasi sempe ao lusco-fusco,
De noute, até horas mortas,
Folgava, as pernas já tortas,
Este rei velho e patusco!

Em noute d'agreste vento,
Na sua mais alta torre,
Pensando em que tudo morre,
Tratou do seu testamento.

A sua amisade céga
Legava a todos dinheiro,
E a seu filho e seu herdeiro
Seu reino, seu povo... e a adega.

Da sua amisade em prova
A todos dava uma graça,
Só aquella enorme taça
Levava o rei para a cova!

Um dia, os altos barões,
Fez juntar para uma orgia,
N'uma sala, onde dormia
As suas indigestões.

E ali, depois de libar...
Passados curtos momentos,
Começou a vêr, aos ventos,
Os seus castellos dançar.

Assoma, trocando o pé,
De taça em punho, á janella,
Mas n'isto, tropeça... e ella
Vae levada da maré...

E afunda-se... mas tal revéz
Tomba o rei morto de magoa!
--Era esta a primeira vez
Que a taça se enchia d'agua!

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