NUM ALBUM

 

      Venham ver este retrato,
      E respondam se o pintor,
      Que desenhasse melhor,
      O tirava mais exacto.
      Eil-a! saltando da tela,
      Viva, inteira, palpitante!
      Pallido um pouco o semblante,
      A boca graciosa e bella,
      Quando o sorriso a desflora,
      É como a rosa da aurora
      Abrindo ao sopro de abril!
      É mais! é ver num momento,
      Quanto pode o pensamento
      Sonhar de casto e gentil!

      O cabello ondado e fino,
      Negro como a noite escura,
      Cai no collo alabastrino,
      E faz resair a alvura
      Do rosto fascinador.

      Os olhos... oh! neste instante,
      Tremo, hesito, não ha cor,
      Não ha luz por mais brilhante,
      Que possa emfim imitar
      O reflexo scintillante
      Da chamma do seu olhar!
      Chamma que ás vezes traidora,
      Se occulta na sombra escura,
      Á espera que chegue um'hora,
      Hora de morte ou ventura!,
      Em que possa deslumbrar,
      Com mais fogo e com mais vida,
      O desvairado que ousar,
      Miral-a sem recear,
      Pela ver assim sumida!

      Terminou?... e eu que julgava
      Cobrir-me de eterna gloria,
      Quando tanto me esmerava
      Na minha copia ideal!
      Agora que na memoria,
      (Ou antes no coração)
      Tenho vivo o original,
      Vejo bem que não ha mão,
      Por mais que saiba pintar,
      Capaz de estampar na tela
      A expressão graciosa e bella
      D'essa face, e d'esse olhar!

Abril de 1859.
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