NUM ALBUM

 

Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns
versos.

      No reverso da folha onde escrevo,
      Um cantor jovenil pulsa a lyra,
      E magoado, e sentido, suspira,
      Com saudosas memorias d'amor!

      Na cadencia da lettra singela,
      Qual murmurio de branda corrente,
      Transparece sua alma innocente,
      Toda vida, perfume, e calor!

      Variegado, risonho, brilhante,
      Inda agora na flor da innocencia
      Vendo o mundo, sorri-lhe a existencia
      Atravez do seu prisma gentil:

      Cuida extinctas ficções encantadas,
      Crê perdido o seu sonho d'amores,
      Julga vêr desbotadas as flores
      Que adornavam sua harpa infantil!...
      ................................

      Ai! poeta! ai de ti! que saudade,
      Que saudade tão funda e sentida
      Has de ter d'esses annos da vida,
      Quando os vires ao longe ficar!

      Que saudade tão funda do tempo
      Em que tinhas sentido saudade,
      Has de ter quando a triste orfandade
      Dos affectos tua alma enluctar!

      Ouve pois joven bardo que a lyra
      Pulsas hoje com tanta amargura;
      De illusões, de poesia e ventura,
      Enche agora teus annos em flor.

      Que são estes ephemeros sonhos,
      Os que vem derramar grata essencia
      Sobre a tarde da nossa existencia
      Dar-lhes vida, perfume, e calor!

Agosto de 1854.
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