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O ANJO DA GUARDA.

«I­mpio, silencio! A tua voz blasphema
Da noite a paz perturba.
Verme, que te rebellas
Sob a mão do Senhor,
Vês os milhões d'estrellas
De nitido fulgor,
Que, em ordenada turba,
A Deus entoam incessantes hymnos?
Quantas vezes apaga
Do livro da existencia
Um orbe a mão do Eterno!
E o bello astro que expira
Maldiz a Providencia,
Maldiz a mão que o esmaga?
Acaso pára o cantico superno?
Ou apenas suspira
O moribundo,
Que se chamava um mundo?
Quem vai pôr uma campa sobre os restos
Desse inerte planeta,
Que o destructor cometa
Incinerou na rapida passagem?
E tu, átomo obscuro,
Que varre á tarde a aragem,
Sóltas do seio impuro
Maldicção insensata,
Porque o teu Deus te evoca á eternidade?
Que é o viver? O umbral, a que um momento
O espirito, surgindo
Das solidões do nada
Á voz do Creador, se encosta, e attento
Contempla a luz e o céu; d'onde desata
Seu vôo á immensidade.
Geme acaso o passarinho
De saudade,
Quando as azas expande, e deixa o ninho
A vez primeira, a mergulhar nos ares?
Volve olhos lachrymosos
Aos mares tormentosos
O navegante, quando aproa ás plagas
Da patria suspirada?
Porque morres?! Pergunta á Providencia
Porque te fez nascer.
Qual era o teu direito a ver o mundo;
Teu jus á existencia?
Olha no outono o ulmeiro
Que o vendaval agita,
E cujas tenues folhas
Aos centos precipita.
São a folha do ulmeiro o nome e a fama,
E o amar dos humanos:
Ao nada do que foi assim se atiram
No vortice dos annos.
Que é a gloria na terra? Um eccho frouxo,
Que somem mil ruí­dos.
E a voz da terra o que é, na voz immensa
Dos orbes reunidos?
Amor! amor terreno!... Ai, se podesses
Comprehender a amargura,
Com que te chóro, oh alma transviada!
Eu, que te amei do berço, e qual doçura
Ha no affecto que liga o anjo ao homem,
Rindo despiras esse corpo enfermo,
Para te unir a mim, para aspirares
O goso celestial de amor sem termo!
Alma triste, que mesquinha
Te debruças sobre o inferno,
Ouve o anjo, pobresinha;
Vem ao goso sempiterno.
Resigna-te e espera, e os dias de prova
Serão para o crente quaes breves instantes.
Tomar-te-hei nos braços no trance da morte,
Fendendo o infinito co' as asas radiantes.
Depois, das alturas teu terreo vestido
Sorrindo veremos na terra guardar,
E ao hymno de Hosanna nos córos celestes
A voz de um remido iremos junctar.»

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