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O CANTO DO ADAÍL.

Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla,
Alvejava do mouro o albornoz,
E corria, e corria veloz
O ginete de Bellamarim;
  Quando o esculca, saído da villa
Da manhã ao primeiro fulgor,
Não podendo a atalaia transpôr,
Vinha ás portas bater de Çafim;
  Quando em Tanger, a forte, se ouvia
De armaduras continuo tinir,
E nos ares se via luzir
O montante, a acha d'armas, e o criz;
  Quando em Ceuta vencida se erguia
Sobre o alcacer pendão português,
Contra o qual na mesquita de Fês
A gazúa prégava o caciz:
  Quando Alcacer-Ceguer, a viçosa,
Que em vergeis se reclina gentil,
Pela noite fragrante d'abril
D'entre os robles sorria ao luar;
  Porque, rico de presa formosa,
Já voltou nobre alcaide christão,
E inda ao longe de incendio o clarão
Tinge o céu sobre um triste aduar:
  Nossa estrella era então esplendente;
Nosso nome era um som do terror;
Nossos paes conduzia o Senhor,
Qual Judá d'entre a sarça do Horeb.
  Portugal, oh leão do occidente,
Tu rugias á beira do mar,
E o teu grito cá vinha troar
Temeroso no ardente Moghreb:
  Era o tempo dos crentes e ousados:
Era o tempo da gloria da cruz!
Ora contam-se as páreas d'Ormuz;
Tem só nome Cochim, Calecut!
  E esses muros d'Arzilla, regados
Com o sangue de martyres mil,
Ermos hoje tu deixas, rei vil,
Porque o Estreito passou Rais Dragut!
  Oh valentes da India, do oceano,
Roncadores de féros no mar,
Cuja espada, porém, faiscar
Não sabe inda do mouro no arnez,
  Mostrar vinde o valor sobre-humano
Neste clima de sol mirrador!
Aqui fama se compra com dor:
Facil gloria esquecei uma vez.
  As galés do arrais mouro são fortes;
Sua chusma berbers do Takrur;
Como o vosso rei indio, Badur,
Não ha-de elle acabar á traição.
  Uma festa de sangue e de mortes
Do occidente nas vagas tereis;
Elmos rijos aqui achareis,
Não o craneo d'inerme sultão!
  Mercadores!--deixae vosso cravo,
A canella, a pimenta, o marfi;
Os vestidos de seda despí;
Ponde, em vez de collar, um gorjal.
  Vella e remo soltae no mar bravo;
Vinde juncto de nós combater;
Nós que Arzilla deixámos perder,
Porque elrei... é um rei desleal.
  Para nós os castellos d'avante;
Para nós a arrombada e bailéu;
Para nós pelejar ante o céu,
Que nos campos d'Arzilla nos viu:
  Para nós o machado e montante;
Para vós a bombarda e arcabuz;
Para nós, ao cahir, ver a luz;
Ver a mão que estes peitos feríu;
  Para nós o tombar derradeiro
Sobre o ferreo esporão das galés;
O pelouro, de sob o convés,
Cá de longe enviar... para vós!
  O sudario do morto fronteiro
Alva escuma da proa será;
E em seus labios--_Arzilla!_--ouvirá
Quem ouvir sua ultima voz.

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E elles, os fortes d'Asia, não vieram
Do cavalleiro d'Africa ao chamar;
E a náu d'elrei ao infamado Tejo
      Veio aportar:
E o adaíl depôs as armas rotas,
      Não no espaldar;
Que nunca o bom fronteiro viram mouros
      Costas voltar.

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E tomando o bordão de peregrino,
Foi-se á Batalha, que é mosteiro pobre
      De dominicos,
Frades mui sanctos, que os judeus queimavam,
      Porque eram ricos.
No meio desses tumulos, que encerram
Os despojos mortaes dos reis que foram,
      Féretro antigo
O adaí­l procurou. De um rei soldado
      Era o jazigo.
Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle,
E palavras, que as lagrymas cortavam,
      Lhe dirigiu:
Maldicção para alguem pedia ao morto;
      Mas nada ouviu!
Então, livido o rosto, os labios brancos,
A fronte lhe pendeu sobre o ataúde
      Do rei extinto.
Expirára ao dizer--_perdeu-se Arzilla!_--
      A Affonso Quinto.

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