O MENDIGO.
I.
O sol passa nos céus:--sob o carvalho,
Por cujos troncos se pendura a vide,
Cego ancião,
Mirrada dextra supplice estendendo,
Ao passageiro, que o despreza, implora
Do opprobrio o pão.
Ninguem o escuta, o dia foge, e a noite
Involve a luz no manto impenetravel:
E elle chorou:
E em seus andrajos para choça alpestre,
Sem se queixar de Deus, tardios passos
Encaminhou:
Mas antes que chegasse ao pobre alvergue,
Do presbyterio o sino harmonioso
Soar ouvia,
Que, despedindo em roda os sons pausados,
Convidava os fiéis a erguer as preces
Da Ave-Maria.
Á cruz do adro relvoso as mãos mirradas
O velho ergueu, e ao céu inuteis olhos
E uma oração,
A oração do infeliz, que Deus só ouve
Quando o desdenha o mundo e ludibria
Sua afflicção.
Para o velho a existencia é solitaria,
Bem como a fonte que esgotou o estio.
Onde os pastores
Vinham a saciar o manso gado;
Onde contavam penas e prazeres
Dos seus amores.
A alampada na igreja triste e muda
Bruxuleava seu clarão, pendendo
Ante o altar-mór:
Como o templo, o porvir era do velho
Cheio de sustos; muda como o templo
Era a sua dor.
Resou, resou, e os olhos se enxugaram:
O orar fervente as lagrymas enxuga,
Qual prado o léste.
Deus o inspirou; sperança é filha sua,
Doce esperança, que os mortaes só deixa
Sob o cypreste.
Voltou á choça, e a macilenta fome,
Sem gemer, supportou sobre o seu leito,
Que é quasi a terra;
E, confiado em Deus, entre as angustias
Do mal, menos crueis que as do remorso,
Os olhos cerra.
II.
Restruge o mar cavado; o vento zune
Pelos mastros da náu; colhido o panno
Das vergas pende;
Brinco das vagas, o baixel arfando
Fluctua incerto, e dos bulcões guiado
Os mares fende.
Correndo árvore secca avulta ao longe,
Como alma em pena vagueiando á noite
Em seu fadario;
E pelas trévas branquejando a escuma,
Que da prôa espadana, imita as prégas
D'alvo sudario.
Envolto no gibão amplo e felpudo,
Rude piloto ao leme trabalhoso
Véla encostado;
Que, se não mentem calculos, o porto
Proximo está, dos lassos navegantes
Tão suspirado.
III.
O vento vai quebrando, e já rareiam
Grossos montões de acastelladas nuvens:
Diurno alvor
Traça no céu d'oriente um risco immenso,
Que reflecte no mar, que veste, ao largo,
Cerulea côr.
Surge o sol radioso e inunda as vagas,
Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte
Mais amplo é já:
Cava aragem ligeira a larga vela,
E do cesto o gageiro clama:--terra!
Ei-la acolá!»
Como deslisa o goso nos semblantes
Por entre as rugas do terror passado!
Como é formosa
Essa pallida praia, e esses rochedos,
E lá no extremo os pincaros da serra
Erma e saudosa!
De indicas mérces, de ouro carregada
Aproa á terra, com celeuma alegre,
A náu pujante;
E pelo verde mar do porto amigo
Abrindo a esteira, restitue á patria
O navegante.
IV.
É meia noite:--os gallos pela aldeia
Dizem que um dia mais desceu ao nada
E que outro vem,
Para dar luz a dores e alegrias
E depois nos abysmos do passado
Cahir tambem.
E o mendigo da aldeia, o velho cego,
Sobre o duro grabato, em choça humilde,
Achou a paz.
Em sonhos via um filho: a longes terras
A miseria o levou: mudada sorte
Feliz o traz.
Quantas vezes presága a mente do homem
Véla como um propheta, em quanto o somno
Seus membros prende;
E como, em trevas de amargosos dias,
No porvir uma luz, prevista em sonhos,
Grata se accende!
V.
Nos gonzos ferrugentos range a porta
Do tugurio do pobre adormecido,
E descuidado;
Que do mendigo o umbral patente é sempre,
Nem carece de estar, como o do rico,
Aferrolhado.
O bom do velho ao sobresalto acorda,
E as lagrymas de alguem banham-lhe a face,
E o pranto é mudo;
Mas breve um grito e o soluçar e os beijos
E o sonho que passou e a voz do sangue
Lhe dizem tudo.
Não mais sob o carvalho ao velho honrado
Esmoladora mão o peregrino
Estenderá:
Meigos lhe sorrirão extremos dias,
E as suas cinzas filial gemido
Consolará.