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O MOSTEIRO DA BATALHA

 

Pulsemos a lyra, que além se levanta
Padrão de victoria que immenso reluz!
Um templo e altares á Mãe sacrosancta;
Um templo, um poema que altivo descanta
Grandezas da patria nos atrios da cruz.


Grandezas da patria quem traz á memoria
Que o peito não sinta d'orgulho bater?
Pulsemos a lyra! do livro da historia
Volvamos as folhas, que a musa da gloria
Em nuvens ethereas sentimos descer!

       *       *       *       *       *

Eis já d'Aljubarrota nas campinas
Se encontraram as hostes contendoras.
D'aqui tremulam portuguezas quinas:
D'além as castelhanas invasoras.
D'aqui é João primeiro, cuja lança
A corôa defende e a patria cara:
D'além o estranho rei, pedindo a herança
Da princeza Beatriz que desposára.


Refulge o sol nas armas, os cavallos
Rincham fogosos escarvando a terra;
D'um lado e d'outro os chefes a intervallos
Correm as alas animando á guerra.
Pouco avultam as hostes portuguezas:
Tremendo é de Castella o poderío;
Mas quem á patria negará proezas
D'alto valor, e generoso brio!


A vespera é do dia consagrado
Á Assumpção gloriosa de Maria;
Os olhos levantando, o rei soldado:
«Senhora, exclama, nosso esforço guia!
«Se vencermos, um templo magestoso
«Te erguerei sobre o campo da batalha!»
Diz, e esporeando seu corcel fogoso
Brios em todos com a voz espalha.


Soam trombetas; o signal é dado;
Fluctuam soltos os pendões na frente:
--Sam Tiago!--brada o castelhano ousado;
--Sam Jorge e ávante!--a portugueza gente.
Rédeas soltando os esquadrões galopam,
E dão em cheio com furor insano,
Como torrentes que no val se topam,
Ou como as ondas no revolto oceano.


Retine o ferro, a multidão se agita;
As hachas d'armas, os broqueis lampejam;
Piões, ginetes, com medonha grita,
N'um mar de sangue em turbilhão pelejam.
O sol já desce a mergulhar no oceano,
E inda referve a encarniçada lida;
Eis redobra d'esforço o lusitano,
E o estrangeiro leva de vencida.


Foge o rei castelhano espavorido;
Fogem os seus em debandada solta;
Persegue-os João primeiro, e destemido
A gosar do triumpho ao campo volta.
Já se erigem trophéos, já resplandece
O céo da patria c'o fulgor da gloria;
Faltava o monumento que dissesse:
--Foi aqui! eis o campo da victoria!

       *       *       *       *       *

    E eil-o ahi que se levanta
    Com magestosa grandeza,
    D'aquella gentil proeza
    Sublime recordação;
    Eil-o ahi aos céos erguido,
    Como um colosso gigante
    Apontando ao caminhante
    O sitio da grande acção.


    Altos porticos, lavores
    D'ostentosa architectura,
    Corucheus d'immensa altura
    Roçando a fronte nos céos;
    Dentro, a nobre magestade
    Do sanctuario profundo,
    Onde, extincta a voz do mundo,
    Só lembra o passado, e Deus.


    Sobre os gothicos pilares
    Brilham tremulos fulgores,
    Que das vidraças de côres
    Entorna a mystica luz.
    Tudo cala, mas, se o orgão
    Por entre as naves resôa,
    Tudo se anima, e apregôa
    O sancto Verbo da cruz.


    Então a mente se enleva
    Nas torrentes de harmonia
    Que da abobada vasia
    Retumbam pela amplidão;
    E, abrazada nos fulgores
    Dos vivos, sagrados lumes,
    Sobre as azas dos perfumes
    Revôa á etherea mansão.


    Se tudo cahe em silencio,
    Cahe em si mesma, e medita,
    Recordando a data escripta
    N'esses gothicos umbraes.
    Pensa então nos heroismos,
    E crenças da meia idade,
    Combatendo a escuridade
    D'aquelles tempos feudaes.


    Pensa nos vultos heroicos
    Dos antigos cavalleiros,
    E em nossos feitos guerreiros
    Pela patria e pela cruz;
    Pensa na grande victoria
    Que nos fez independentes,
    E que aos olhos dos presentes
    N'esse moimento reluz;


    Pensa n'um povo pequeno,
    Mas esforçado e guerreiro,
    Triumphando do estrangeiro
    Á voz do rei popular;
    Pensa no Mestre valente;
    E sua sombra gigante
    Parece ás vezes distante
    Entre as columnas vagar.


    E pensa tambem no artista,
    N'esse architecto inspirado
    Que um poema sublimado
    Alli traçou a cinzel;
    Que cego da luz dos olhos
    Accendeu a luz do engenho,
    E consummou seu empenho,
    Ao grande assumpto fiel.


    E Affonso Domingues surge
    N'esse padrão sobranceiro
    Ao lado de João primeiro,
    Seu immortal fundador;
    Reis ambos: um pelo berço
    Que lhe deu sua nobreza;
    Outro, rei pela grandeza
    Do seu genio creador.


    Lá dormem! um rodeado
    Dos brazões da sua gloria,
    Como depois da victoria,
    Sob a tenda a descançar;
    Outro á sombra d'esses tectos
    Em campa singela e nua,
    Como querendo a obra sua
    D'além da tumba guardar.

       *       *       *       *       *

E lá dormem tambem outros que a morte
Juntou á sombra do logar sagrado,
D'infantes e de reis alta cohorte,
Servindo de cortejo ao rei soldado.


Reunidos emfim no chão funereo,
Fernando, Pedro, e Henrique, os tres infantes;
Henrique, o sabio audaz que outro hemispherio
Primeiro abriu aos lusos navegantes.


Duarte e João segundo descançando
D'altas victorias na mansão tranquilla;
Affonso quinto c'os laureis sonhando
D'Alcacer, Tanger, e da forte Arzilla.


E no sôpro do vento que perpassa,
E lhes roça nas frias sepulturas,
Parecem murmurar em voz escassa,
E agitar suas ferreas armaduras.


E lá quando o luar pelas janellas
Lhes escôa nas lapidas marmoreas,
Talvez erguidos se recostam n'ellas
A fallar entre si de nossas glorias.


Dormi em paz, ó chefes do passado,
Heroico fundador, prole valente;
Dormi em paz no tumulo calado
Recordando os laureis da vossa gente.


Enchei em roda os penetraes divinos
De vossos gloriosos esplendores;
E se tendes poder sobre os destinos,
Defendei-os do tempo e seus furores.


Que as gerações passando reverentes
Possam, volvendo as paginas da historia,
Largas eras saudar, curvando as frentes,
Esse padrão d'immoredoura gloria!
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