O Relógio dos Inocentes

A vida é um rio que corre,

Num sopro breve de vento.

O presente logo morre,

No altar do esquecimento.

O ontem já foi agora,

O amanhã já se sente,

Enquanto o mundo lá fora

Rouba a paz de tanta gente.

 

Os ilustres traçam guerras,

Loteiam a liberdade.

Espalham dor pelas terras...

Que triste realidade!

A vida voa no tempo,

Nas asas do pensamento,

Cruzando o vago profundo

Deste nosso imenso mundo.

 

Que acorda, ora sorrindo,

Ora em pranto se desfazendo,

Nas horas do relógio indo,

Onde o instante nasce morrendo.

Tudo escapa num segundo,

Pelas mãos de um vagabundo

Disfarçado de Doutor.

 

Inventam-se os arraiais,

O barco baloiça no cais.

O Sol deita-se no horizonte,

Bebem os pardais na fonte.

Voam, dos beirais, as andorinhas,

E, dos cortiços, as rainhas ...

Voam sem medo, em levante,

Nesta vida inquietante!

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