PARISINA

A Pedro Jacome Corrêa


                                                  MEU CARO AMIGO.

A idéa de emprehender a imitação d'este bello romance do autor do
Child-Harold, devo-a ao meu amigo. A obra teria ficado em meio, se não
fossem os desejos que manifestou de vel-a concluida. É por isto que tomo
a liberdade de lh'a offerecer agora que vou dal-a ao publico.

Chamo-lhe imitação, porque me parece mais modesto o titulo, posto não seja
essa a opinião geral, nem talvez fosse a minha noutras circumstancias.
Nesta porém, creio que mais distante ficaria do original, quanto mais
escrupulosamente intentasse aproximar-me d'elle.

Não sei se faço perceber bem a minha idéa: intendo que interpretar as
obras do genio, é mais difficil do que imital-as de longe. A traducção
deve ser a copia fiel; e como copiar os arrojos do maior poeta que tem
tido este seculo?! Ainda assim procurei, quanto pude, seguir o
pensamento predominante da composição, e conservar alguns toques da cor
primitiva do quadro. Não sei se o alcancei. Se numa ou noutra passagem
menos infeliz da minha tentativa o leitor sentir aquelle sabor
particular que se encontra em todas as composições do grande poeta,
dar-me-hei por satisfeito; se, como é mais provavel, nem isso houver
conseguido, terei o castigo na indifferença publica. Com o que eu
decerto conto é com a benevolencia do meu bom amigo para desculpar a
insignificancia d'esta offerta ao

                                                         Seu do coração

Janeiro de 1857.

                                                           BULHÃO PATO.
PARISINA


Imitação


                  I

      É na hora, em que a voz bella e sentida
      Do meigo rouxinol, entre a folhagem
      Das balsas escondido, solta ao vento
      A saudosa canção do fim do dia:
      Hora solemne e grata em que os amantes
      Renovam mil protestos de ternura,
      De constancia e d'amor; em que o susurro
      Da fresca viração vai confundir-se
      Co'o murmurar da trepida corrente.
      De cristalino orvalho borrifadas,
      As vicejantes flores da campina
      Mais vivo aroma espargem no ambiente.
      Accendem-se no ceo milhões de estrellas,
      É mais escuro o azul á flor das vagas,
      E a verdura do bosque é mais sombria.
      Entre as trevas e a luz, o firmamento
      Jaz velado por languido crepusculo,
      Que rapido se esvai nos frouxos raios
      Da lua, despontando no horisonte.


                  II

      Mas não é para ouvir os doces carmes
      Do amoroso cantor, que Parisina
      Do palacio feudal ao parque desce;
      Nem para contemplar a luz brilhante
      Das tremulas estrellas, que divaga
      Por entre as sombras que diffunde a noite.
      Se procura um desvio na espessura,
      Não é para aspirar o vivo aroma
      Das matisadas flores; e se escuta,
      Não é de certo para ouvir das aguas
      O brando murmurar. Sons mais queridos
      Espera o seu ouvido nesse instante.
      Rangendo as folhas seccas denunciam
      Que se aproxima alguem: empallidece
      De susto e de prazer ao mesmo tempo.
      D'entre as ramas que a brisa doidejante
      De espaço a espaço agita, mansamente
      Parte emfim uma voz: é voz amiga;
      De subito o rubor lhe volta ás faces,
      E mais livre, porém não menos forte,
      Bate-lhe o coração no peito agora.
      Mais um momento só é já passado,
      Aos pés da bella jaz o cego amante.


                  III

      O ceo, a terra, os homens, quanto os cerca,
      Que lhes importa nesse doce instante?
      Tudo é nada a seus olhos deslumbrados
      Pelo fogo do amor; tudo se perde,
      Se confunde, e se esvai nesse delirio!
      Nos suspiros que vem do fundo d'alma,
      Nesses mesmos, respira tal ventura,
      Que, se fosse mais longa, dentro em pouco
      A vida ou a razão succumbiria!

      Oh! quem sente lavrar dentro do peito
      O fogo da paixão com tanto imperio,
      Não pensa na desgraça, nem se lembra
      Da curta duração de taes enganos!
      Ai! quantas vezes despertâmos antes
      De saber que não volta o mago sonho!!


                  IV

      Vão partir: vão deixar com passos lentos
      O encantado logar que presenceára
      O seu transporte em delirante crime.
      Vão partir: e apesar dos mil protestos,
      Da esperança que em breve hão de juntar-se,
      Dor profunda no peito lhes comprime
      Agora o coração, como se fosse
      Aquella a derradeira despedida.
      Parisina, cravando os olhos languidos
      No firmamento azul, treme, sentindo
      Que aquelle ceo não pode perdoar-lhe.
      Elle outra vez a cinge contra o peito;
      Um suspiro, um adeus, inda outro beijo,
      É forçoso partir, levando n'alma
      Os amargos, crueis presentimentos,
      Que de perto acompanham sempre o crime.


                  V

      Tranquillo no seu leito solitario,
      Hugo repousa, e pode sem receio
      Livremente soltar o pensamento.
      Porém ella descança a fronte pallida
      Das fadigas do amor, junto do esposo.
      Sonhando, em voz sumida solta um nome,
      E suppondo estreitar contra seu peito,
      Agitado e febril, o terno amante,
      Entre os braços comprime esse que dorme
      Agora ao lado seu. Subito acorda
      Á suave impressão do meigo abraço
      O esposo que se julga idolatrado,
      Até nos sonhos da adorada esposa!


                  VI

      Sobre o seu coração com quanto affecto
      Reclina aquella fronte encantadora!
      Com quanto afan procura ouvir as frases,
      Que de seus labios solta entrecortadas!
      Mas.... que ouviu? Santo Deus! Nesse momento,
      Azo, o altivo senhor, estremecêra
      Como tendo escutado a voz do archanjo!
      Oh! deve estremecer, porque a sentença,
      A sentença fatal que os seus ouvidos
      Acabam de escutar, vai despenhal-o
      Para sempre no abismo da desgraça!
      O nome que ella em sonhos proferíra,
      Que soára tremendo como a vaga,
      Quando arremeça aos concavos rochedos
      A debil prancha que sustenta o naufrago,
      Esse nome qual foi? O nome de Hugo;
      Hugo, o filho da pobre e linda Branca,
      Que o principe illudiu, e sem piedade
      Depois abandonou! Hugo, seu filho,
      Fructo innocente de um amor culpado!


                  VII

      Azo arranca o punhal, mas pára olhando-a!
      Quem podera immolar um ser tão bello?!
      Oh! ninguem! Apesar do negro crime,
      Da nefanda traição, faltam-lhe as forças,
      Ao contemplal-a assim adormecida.
      Nem a acorda sequer, mas por instantes
      No seu rosto encantado crava os olhos.
      Se de subito agora despertasse,
      A infeliz nesse olhar sentíra a morte!
      Pela fronte do principe traído,
      Frio corre o suor, e á luz da lampada
      Estremecem brilhando as grossas bagas.
      E ella dorme! Oh! mal sabe que os seus dias
      Nesse instante fatal foram contados!


                  VIII

      Assim que o sol desponta no horisonte,
      Azo corre a indagar pelos que o cercam,
      E as derradeiras provas apparecem.
      As aias da princeza, largo tempo
      Conniventes no crime, revelaram
      Quanto havia de occulto nesse drama.
      Não tem que duvidar! Azo, escutando
      A longa historia de tão negro crime,
      Sente em ondas subir-lhe o sangue ás faces,
      Que de profunda cholera se inflammam.


                  IX

      Na vasta sala do feudal palacio
      O orgulhoso Senhor da casa d'Éste,
      Sobre o purpureo throno está sentado.
      Nobres, pagens, soldados o circundam,
      Os olhos crava nos culpados ambos,
      Ambos jovens e bellos. Duros ferros
      Tem sujeitos os pulsos do mancebo,
      Que fôra brutalmente desarmado
      Por mercenarias mãos da nobre espada.
      Na presença de um pae é d'este modo
      Que deve, oh Christo, apresentar-se um filho?!
      Porém, Hugo infeliz, nesse momento,
      Tem de ouvir a sentença incontrastavel
      Dos labios paternaes, prestar ouvidos
      Á triste narração do seu opprobrio!
      E comtudo a expressão do nobre rosto,
      A distincta altivez conserva ainda!


                  X

      Pallida, sem alento e silenciosa,
      Aguarda Parisina nesse instante
      As palavras fataes. O seu destino
      Quão rapido mudou! Ha pouco ainda,
      D'aquelles olhos a celeste chamma
      Pelos salões doirados espargia
      A meiga seducção. Se nesses olhos
      Visse alguem borbulhar uma só lagrima,
      Mil cavalleiros da mais nobre estirpe,
      Arrancando da espada, a vingariam!
      Mas agora, infeliz! quantos a cercam,
      Mal disfarçam no rosto carregado
      A contida expressão do seu desprezo!
      E elle, o amante adorado da sua alma,
      Elle, oh Deus! que liberto por instantes,
      Por instantes que fosse, a houvera salvo,
      Jaz preso ao lado seu em duros ferros!
      Jaz ali, mas não vê que aquellas palpebras
      Onde outr'ora fugia a cor suave
      Da terna violeta, convidando
      A mil sequiosos, demorados beijos,
      Se entumecem, velando a vista immovel
      Das pupillas, nas quaes a dor intensa
      Accumula uma lagrima apoz outra!


                  XI

      Oh! por ella tambem, nesse momento,
      Derramára o infeliz amargo pranto,
      Se de tantos a vista a não cercasse.
      A dor que o devorava, parecia
      No mais intimo d'alma adormecida;
      A fronte macilenta e transtornada,
      Conservava-se altiva. Por mais forte,
      Mais acerbo que fosse o seu tormento,
      Não quizera humilhar-se na presença
      D'aquella multidão que o comtemplava.
      A companheira bella de infortunio,
      Não se atrevia a olhar. Ao recordar-se
      Das horas do passado, do seu crime,
      Da vingança de um pae, do seu destino,
      E sobre tudo do destino d'ella,
      Não ousava lançar sobre esse rosto
      A desvairada vista, receando
      Que, cedendo ao remorso, revelasse
      Quanto o seu coração fôra culpado.


                  XII

      Azo emfim sólta a voz:
                            «Ha pouco ainda,
      Numa esposa e num filho resumia
      Toda a minha ventura neste mundo.
      A aurora dissipou tão bello sonho!
      Antes do pôr do sol, nem um nem outro
      Me devem pertencer. Quebrem-se embora,
      As ligações mais caras da minh'alma!
      Hugo! um padre te espera, e depois d'elle
      A justa punição do teu peccado.
      Ergue preces ao ceo antes que o lume
      Das estrellas se accenda no horisonte:
      Talvez te dê perdão. Mas neste mundo
      Não existe logar onde possâmos
      Nós ambos respirar. Adeus, não quero
      Assistir ao teu ultimo momento!
      Porém tu, fragil ser, ensanguentada
      Terás de vêr cair essa cabeça.
      Vai, traidora mulher; sobre a tua alma
      Pese o remorso da desgraça d'elle!
      Vai-te, adeus, e se podes, contemplando
      Este exemplo fatal, ter vida ainda,
      Gosa d'ella, que livre t'a concedo!»


                  XIII

      Velando a face pallida e sombria,
      Onde as veias inchando palpitavam,
      Como se o sangue em ondas refluisse
      Do coração á fronte, Azo ficára
      Callado longo tempo. Hugo, soltando
      Profunda, porém firme, a voz do peito,
      Roga ao pae que o escute alguns momentos.
      O principe em silencio lh'o concede:

      «Tu bem sabes que a morte não receio;
      Tinto em sangue mil vezes nas batalhas
      Me viste ao lado teu, onde mais forte,
      Mais travado e mortal, era o combate.
      Então deves lembrar-te que esta espada,
      Que ha pouco os teus escravos me arrancaram,
      Derramára mais sangue do que em breve
      Fará correr a mão do teu carrasco.
      Deste-me a vida; arrancas-m'a; que importa?
      Quite me deixas d'esse dote infame!
      Presente, viva tenho na memoria
      A injuria com que as faces affrontaste
      De minha pobre mãe; e a vil herança
      Que recebi no berço, inda me accende
      O semblante de cholera e vergonha.

      «No tumulo onde agora ella repousa,
      Irá juntar-se em breve o meu cadaver.
      Transido o peito seu por mil desgostos,
      Separada do corpo esta cabeça,
      Entre os mortos dirão até que ponto
      Foste amante fiel, pae carinhoso.

      «Ultragei-te, é verdade, mas bem sabes
      Que trocámos affronta por affronta.
      A mulher a que chamas tua esposa,
      Victima ingenua do teu fero orgulho,
      Não te lembras que fôra largo tempo
      Destinada a ser minha? Mas tu, vendo-a,
      Contemplando o seu rosto, desejaste-a,
      E para emfim provar que não podia
      Pertencer-me jámais ousaste affoito,
      Allegar o teu crime e a minha origem.

      «Era indigno de ser esposo d'ella!
      E porque?! Por que as leis não consentiam
      Que eu podesse aspirar ao throno d'Éste.
      E comtudo, se a mão da Providencia
      Me conservasse a vida, dentro em pouco
      Podéra conquistar de certo um nome
      Tão nobre como o teu. Tive uma espada,
      E sobeja ambição para elevar-me
      Com ella aos feitos de sonhada gloria.
      Bem sabes que as esporas mais brilhantes,
      Nem sempre as traz aquelle que nascêra
      Embalado na purpura, e que as minhas,
      O corcel que montava, por mil vezes
      Avante arremessaram dos mais nobres,
      Mais valentes senhores, quando, lembras-te?
      Carregando eu bradava: _Éste e victoria!_
      O meu crime conheço, e não procuro
      Minoral-o, descança, nem tão pouco
      Implorar-te alguns dias de existencia,
      Rapidas horas que sem ser contadas
      Passarão sobre a pedra do meu tumulo!

      «Delirio, como foi o do passado,
      Não podia ser longo. A minha origem,
      O meu nome, não são de mancha isentos;
      Mas comtudo, apesar do teu orgulho,
      Regeitar perfilhar-me!... nesta face,
      Quaes olhos não verão que sou teu filho?
      A minh'alma tambem de ti procede!
      De ti, sim; por que tremes? de ti veiu
      O indomavel vigor do meu caracter.
      Não foi somente a vida que me deste,
      Porém quanto podia emfim tornar-me
      Em tudo igual a ti. Comtempla a obra
      Do teu culpado amor! Na semelhança,
      Semelhança fatal que vês no filho,
      Irada te castiga a Providencia!
      Est'alma não é pois a d'um bastardo,
      Como a tua não soffre a tyrannia.
      O passageiro sopro da existencia,
      Nunca em mais o presei do que tu proprio,
      Quando juntos na força do combate,
      A galope os corceis, a espada em punho,
      Por mil vezes nas renques do inimigo
      Rompendo a ferro frio penetramos.

      «O passado acabou, e dentro em pouco
      O futuro com elle irá juntar-se,
      «Mas oxalá que a mão do Omnipotente
      He houvesse dado a morte em taes instantes!

      «Era pouco deixar-me orfão no mundo
      Do affecto maternal; ousaste ainda
      Arrebatar-me a noiva! Mas que importa?
      Sou teu filho, conheço-o neste instante,
      E a sentença cruel que proferiste,
      Posto venha de ti, não posso agora,
      No fundo de minh'alma achal-a injusta.

      «No peccado nasci, morro na infamia;
      Por onde começou, termine a vida.
      Errando o filho, o pae tambem errára;
      Num, castigas os dois. Perante os homens
      Eu, quem sabe? serei o mais culpado,
      Porém Deus julgará entre nós ambos.»


                  XIV

      Cruzando as mãos no peito Hugo fizera
      Resoar os grilhões, e d'entre os chefes,
      Que a sala do palacio povoavam,
      Não houve um só, que ouvindo esse ruido
      Deixasse de tremer. Depois cravaram
      Sobre a fatal beldade a vista a um tempo.

      Parisina, infeliz! pallida e fria,
      Immovel como estatua de alabastro,
      Dissemos que assistíra á scena horrivel,
      Da perdição do amante. Os olhos fixos,
      Scintillantes, abertos, desvairados,
      Nem sequer por instantes se volveram.
      Nem uma vez as palpebras, cerrando-se,
      O fito olhar velaram; mas em torno
      Das pupillas azues, e resplendentes,
      Sem cessar se alargava o alvo circo!

      Uma lagrima a custo conglobada,
      Lentamente das palpebras saía,
      Tremendo sobre a franja das pestanas:
      Quem o sabe contar? nesse momento,
      Os que a viam, pasmavam, não podendo
      Crer que a olhos de humana creatura,
      Fosse dado verter tão grossas lagrimas!

      Quiz fallar, mas a voz morreu cortada:
      Comtudo no som cavo que soltára,
      Nesse longo suspiro, parecia
      Que vinha o coração; apoz instantes
      Tentára inda outra vez, porém debalde!
      Do mais fundo do peito a voz partira
      Num grito, num gemido prolongado,
      E depois como a pedra, como a estatua
      Derrubada da base, como tudo
      O que é de vida falto emfim caíra
      Digno emblema do tumulo da esposa,
      Do traído senhor da casa d'Éste!
      Porém não da mulher que sente n'alma
      O remorso do crime, e nelle segue
      Pelo ardor dos desejos instigada.

      Do lethargo fatal tornára em breve,
      Mas não para a razão; cada sentido
      Por dor intensa fôra aniquilado.
      Como das cordas do arco humedecidas
      Lassas da chuva, as settas disparadas
      Vão bater ao acaso, assim do cerebro
      As magoadas fibras só soltavam
      Desvairados, e vagos pensamentos.

      O passado, e porvir! Ermo o passado!
      Nas trevas do porvir apenas via
      Um sinistro clarão, de espaço a espaço,
      Semelhante ao do raio quando fende
      As nuvens conglobadas no horisonte,
      E cai sobre um logar deserto e triste.
      Gelada de terror sentia n'alma
      O peso do remorso; que existiam
      A vergonha, o peccado, na consciencia,
      Uma voz mal distincta lh'o lembrava;
      Que a morte estava ali pairando livida
      Sobre alguem, nesse instante o presentia.
      Sobre quem? Esquecera-o. Era a vida
      O sopro que seus labios respiravam?
      Era o ceo, era a terra, eram os homens,
      Que tinha ante seus olhos deslumbrados?
      Os homens, ou demonios que a miravam
      Com sinistra expressão? Eram os mesmos
      Cujo olhar noutro tempo revelava
      Tão suave, e profunda sympathia?
      Tudo era incerto e vago no seu animo,
      Receios, e esperanças insensatas;
      Agora um meigo riso, logo um pranto,
      E no seu desvairado pensamento,
      Cuidava ser aquelle um sonho horrivel
      No qual o coração se debatia.
      Porém d'elle, oh! debalde procurára
      Acordar a infeliz jámais na vida!


                  XV

      Na torre pardacenta do mosteiro,
      Balançam lentamente agora os sinos,
      E o som profundo e triste dentro d´alma,
      Desperta dolorosos sentimentos.
      Por aquelles que á sombra do cypreste,
      Repousam para sempre, ou dentro em pouco
      Terão de repousar, o canto funebre,
      Que ouvis neste momento se desprende.
      Na terra humida, e fria, eil-o de joelhos;
      Ante os olhos o cepo, ao lado um padre!
      Braços nus o carrasco attento espera
      Pelo instante fatal; certeiro e forte,
      Deve o golpe caír. Horrivel quadro!
      Mas comtudo ao redor avidamente,
      A turba silenciosa se reune,
      Para ver, Santo Deus! no cadafalso
      Por ordem de seu pae morrer um filho!


                  XVI

      É um'hora encantada a que precede
      O derradeiro adeus do sol explendido!
      Na pompa de seus raios fulgurantes,
      Parece escarnecer da scena horrivel
      Que se aproxima de seu termo agora.
      Curvado aos pés do monge, em voz sumida
      Hugo profere a derradeira prece,
      Prece contricta, humilde, fervorosa.
      Nessa fronte inclinada e pensativa
      Bate um raio de luz, porém mais vivo,
      Mais brilhante reflecte sobre a lamina,
      Que proxima da victima responde
      Por um forte, mas lugubre, reflexo.

      Como est'hora suprema é dolorosa!
      O crime fôra atroz, justo o castigo;
      Mas comtudo o supplicio nesse instante
      Faz gelar de terror quem o contempla!


                  XVII

      As orações extremas acabaram;
      O filho ao pae traidor, o audaz amante,
      Tudo emfim confessou. Rapidas tocam
      As horas no seu ultimo momento.
      As ondadas madeichas de cabello
      Já cairam no chão. O nobre manto
      Bordado pelas mãos de Parisina,
      Não deve acompanhal-o á sepultura.
      Tentam vendar-lhe o rosto, não consente
      Esta final affronta. O seu orgulho,
      Comprimido no mais intimo d'alma
      Pela expressão de fria indifferença,
      Acorda nesse instante, repellindo
      A mão do algoz que vem cobrir-lhe os olhos.

      «O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te,
      Preso, algemado estou; co'a vista livre,
      Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo
      No logar do supplicio inclina a fronte.
      Ao proferir esta palavra: «Fere»
      Brilha o ferro no ar; silvando o golpe
      Cai rapido e fatal. Rola a cabeça,
      O corpo palpitante e transtornado,
      Pula envolto no pó, que bebe o sangue
      Saído em borbotões pelas arterias!

      Inda instantes os labios estremecem,
      Nos olhos inda fulge a luz da vida;
      Tudo emfim acabou! Morto sem pompas,
      Como deve morrer o homem culpado
      Que se arrepende no momento estremo,
      Elle o seu coração oppresso e triste
      A Deus sómente consagrou ness'hora.

      A imagem de seu pae, da propria amante
      O que eram á sua alma atribulada?
      Um sentimento das paixões terrestres
      Não viera turbar naquelle instante
      A pura contricção do seu espirito,
      A não ser quando expondo a fronte nua,
      Ao cutello do algoz quiz ver a morte.
      Era o unico adeus que proferira,
      Ás testemunhas do cruel supplicio.


                  XVIII

      A multidão gelada e silenciosa,
      Mal ousa respirar. Alguns gemidos
      Cortados, mas profundos, se escutaram;
      Nada mais, a não ser o som socturno
      Do cutello batendo sobre o cepo.

      Nada mais? houve um som, um grito horrivel,
      Estridulo, selvagem, semelhante
      Ao da mãe, que de um golpe repentino
      Vê cair a seus pés sem vida o filho!
      O grito de quem foi, de onde partiu?
      De um seio feminil, e mais terriveis
      Não os solta jámais o desespero!


                  XIX

      Hugo jaz no sepulchro, e Parisina
      Dissera acaso eterno adeus ao mundo,
      Refugiando sua alma atribulada
      No silencio da cella de um convento?
      O veneno, o punhal talvez seriam
      O severo castigo do seu crime?
      Ou succumbira emfim nesse momento,
      Em que vira brandir o duro ferro
      Sobre a adorada fronte? compassiva
      A mão da Providencia permittiu,
      Que ao quebrar-se em seu peito confrangido
      De angustia o coração, se terminasse
      Tambem com elle a fragil existencia?
      Não o soube ninguem. Aquella vida,
      Ai! de mim! acabára neste mundo
      Pela dor como a vida principia!

Setembro de 1856.

 

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