páginas timbradas
Autor: António Tê Santos on Saturday, 30 July 2016esbanjei a virtude dentro dum navio quando os cordames prenderam a sensibilidade para que eu fosse detraído e enfim soçobrasse coberto de hipocrisia.
esbanjei a virtude dentro dum navio quando os cordames prenderam a sensibilidade para que eu fosse detraído e enfim soçobrasse coberto de hipocrisia.
relevo o sonho como uma benesse requintada, presa a uma asa que adeja pelos céus; entendo que a sua fusão com a contextura beneficia quem abalroa a tristeza com devaneios que submete a uma investigação.
a angústia cai numa lixeira, as facécias que apuro estão junto das regras triviais: escrevo poemas que guardo no meu património; escrevo-os com uma voz moderada no terreno amplo da lucidez.
as mensagens que eu sustento para me projetar no espelho das ilusões rasgando trouxas junto ao umbral que a ansiedade subjugou: são rastilhos de esperança com que estrangulo a negligência legando ao meu repouso variegadas cintilações.
os poemas que invento quando as paixões se disseminam sobre o leito das desgraças manipulando os cânticos odorados pela virtude: são poemas com atilhos que os enleiam a um passado que a volubilidade quis assinalar.
o folguedo solta-se duma estrutura tremeluzente projetando um alarido poético: são inúmeros os devaneios dum jovem prometedor mas também os dum veterano que reinventa a sua vida estendido no tablado da clarividência.
há poemas que transvertem a maneira de sonhar ao caminharem através de traquinadas babelescas: ao imergirem na rotundidade das querelas com imprecações e opróbrios; ao promoverem os afetos a cabos de alta tensão.
transporto razões dispersas que se assentam nos bancos onde se usava namorar: as saliências empurram-me pela senda do tormento ao preencher estas páginas com chagas e cicatrizes.
há lágrimas obesas em que eu reduzo à maresia ampla do meu sentir os espinhos que alardeiam a liberdade; são comoções que trocam olhares de indigência em diagramas que perduram.
a alma inventa várias maneiras de sobreviver: o seu isolamento numa redoma inquebrantável; o seu criterioso resfolgar pela área da redoma como se esta fosse uma caverna inatingível e sombria.