Quando oramos

Quando oramos
 
Nunca acredite quando as pessoas 
lhe disserem que a vida 
é fácil
e ela afinal ali à mercê
se recusa viver e se torna até
mil vezes tão difícil
e a vida
é muito mais que isso, 
tem que ser muito mais que tudo
pouco ou muito de nada
é pra ser vivida dia a dia
intensamente,
clamorosa e nunca esporádicamente
sempre atrás de pequenas vitórias

O monstro dos mil dias de chuva

Eu existo nos espaços vazios e respiro o silêncio, a inquietação.
Estou tão perto de ti como de qualquer um.
Eu não vejo pessoas.
Vejo vultos.
Rochas negras que caminham
E esperam pelo mar que as corroa
Enquanto eu vagueio nos cantos
Brincando com os deuses a rasgar cartas de amor
Que eu não compreendo
Vi a minha mãe no outro dia na multidão.
Estou tão perto dela como de qualquer um.
Talvez já não sinta nada por ela como por ninguém.

Eu estarei lá

Eu vou estar lá
 
Deixa-me ser feliz...assim como sou
tão perto ou longe daqui
ressuscita-me num lugar além-mar
sitiado no culminar dos nossos silêncios
entre esta sede e a calmaria
que nos sustenta
como promessa segura e nunca invejada
pois por muitos luares tristonhos que
o céu te ofereça,
eu estarei lá
raiando como teu sol
todos os dias, nenhum fictício
mas real, urgente

Passar do tempo

Passar do tempo
 
Nada mais dura para sempre
tudo é esporádico volátil
porque aprendi como nunca desfazer 
as oportunidades que a vida nos oferta
e sem certezas absolutas recuso-me
a direccionar palavras que não aquelas
que ainda sobrevivam ao passar do tempo
se projectem no meu silêncio
multipliquem todos os sinais e ecos
de felicidade nunca intimidantes
nem contraditórios
mas que apenas nos restituam

Olhando sobre o mar

Olhando sobre o mar
 
Não há mais flores, nem festas
o brilho das celebrações findou
nesta desordem que aplaca
meu coração
carregando incansável
ainda a Primavera passada
esqueço-me que amanhã morrerá em nós
aquela madrugada vestida no festim das constelações 
que brilham além do reflexo deste mar tanto nosso
procura-me, entrelaça-te em mim
comemora-me uma vez mais
apaga-me o bulício desta luz virgem

Tão forte

Tão forte
 
Algumas recordações
são como as  pétalas das rosas
que com o tempo 
se desfolham e caiem
inertes no solo, o mesmo solo
onde pisamos cada integridade contida
nos grãos de areia
quantas solidões teremos que sofrer
e depois sair de mãos dadas
com esperança contida na fé
por cumprir,íntegra,sóbria rendida
a tudo o que nos sacia e redime
qual sede de viver e amar
amando

Metamorfose ao acordar

Metamorfose ao acordar

 

 

Vem conhecer um ser confuso

Que rasga folhas á longos anos

E que por mais que escreva nunca se sacia

Busco palavras nas avenidas do mundo

Busco palavras no meu poço fundo

Não sou o que esperaram de mim

Não serei o que sempre quis ser

Não tenho espaço, nem tempo

Para mudar o que sempre quis ser

Os defeitos que tenho ... já não são defeitos

São apenas o que sou

Perdoem-me por ser confuso e ter procurado toda a vida

Retorno À Origem

Aprontei a dar fuga da cidade
Com toda a possível fugacidade.
O bucólico estava prometido,
Já se sabe: o prometido é devido!

O frenético reboliço urbano
Causa me um alheamento tirano.
Faz-me ficar tal peixe fora d'água,
Fico vazio, perdura só mágoa!

Cinzenta cidade, negro alcatrão
Deixem-me fugir, larguem-me da mão!
Como é possível ar tão poluído?
Ensurdeci do tamanho ruído.

Que Importa?

O que te importa o que da vida faço?
Se amo, se odeio, se tenho cobiça?
Nós não somos mais que um mero pedaço
de carne, ah!, a apodrecer em preguiça.

Temos alma? Pois sim, alma teremos.
Mas até essa no fim desvanece.
Nada resta, e todos então seremos
Somente uma memória que arrefece.

Lembras-me ainda que é o raciocínio
Que nos diferencia dos animais.
Mas na morte, esse tão triste desígnio,
Todos são, homens e bichos, iguais.

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