Desgosto
Marco meu tempo em sonhos inacabados,
Em dias que parecem se repetir em desespero
Numa paródia de rotina de desigualdades.
Vivo. Deixando rastros fragmentados
Que alguém talvez reconstitua
Como querendo desvendar um crime.
Meu crime é perfeito
Primeiro sequestrei meus projetos
E os mantive em cárcere privado
Pensei até em pedir resgate…
Mas assassinei cada centavo sobrevivendo arduamente
Numa realidade cruel e mesquinha
Paguei altos subornos
Para manter-me no conforto fútil
Da espera por um amanhã
Que a cada dia parecia acontecer
Só no ano que vem
Há quem me diga que queria ter minha vida;
Há momentos em que viver parece um sonho…
Coleciono reminiscências
Para, na ditosa idade,
Repetir como o sábio
Que eram tudo vaidades
Já não sei se sou vaidoso
Ou louco
Ou estúpido
Mas acordo com sonhos pequenos e fugazes
E adormeço os grandes
Calando fundo o que me grita a alma
E enfim, talvez meu epitáfio
- Preferia um epílogo… - Seja: “grande!”
Ainda que um grande nada.