Perfeito silêncio

Oblivion, Lucia Micarelli /Rostro de Vos Mario Benedetti

Vou deixar quieto
 
o meu silêncio
 
Contentar-me em alegrar a fachada
 
onde deposito plenas gargalhadas
 
embrulhadas no tempo perfeito
 
quando enfeito todas as calmarias
 
debruçadas na ténue luz da manhã
 
que respira escaldando minh’alma
 
escancarada
 
no páteo de tuas cantarias
 
 
- Esqueci-me das palavras
 
neste perfeito silêncio
 
Penetrei nas sombras da noite
 
atando-te ao gomo de luar
 
onde semeio uma grata aurora
 
forasteira
 
em ondas ébrias entardecendo
 
meus horizontes, vagando por ali
 
nas tuas trincheiras
 
 
- Afogámos nossas esperanças
 
num almanaque de palavras gentis
 
içando estes versos
 
num perfeito silêncio
 
convergindo num destino que pulsa
 
velando nossa existência infinita
 
manufacturada na fímbria da noite
 
que agora fenece tão explicita
 
 
- Observo o madrugar dos meus
 
sentimentos
 
velar-te imarcescível
 
enquanto partilho pelas veredas
 
do tempo
 
um solicito beijo correndo
 
apressado por ti
 
tão apetecível
 
 
- Parei do lado do tempo
 
plausível
 
entregando-me ao feliz
 
suspiro deste perfeito
 
silêncio
 
quase irreversível
 
 
- Deixei-te sem palavras…irrepetíveis
 
nem saudades intransponíveis
 
apenas o que restou
 
deste poema em fragmentos
 
proféticos abotoado ao degredo
 
que me deixou tentadoramente
 
por ti disponível
 
na eternidade implacável
 
de um silêncio sorrateiramente inaudível
 
FC
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