Apoteose

Mastros quebrados, singro num mar d'Ouro
Dormindo fôgo, incerto, longemente...
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje só móro...

São tristezas de bronze as que inda choro -
Pilastras mortas, marmores ao Poente...
Lagearam-se-me as ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca óro...

Desci de mim. Dobrei o manto d'Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

Arida palma

    Arida palma
    Tem seu licôr,
    Tem como a alma
    Tem seu amor;
    Tem como a hera
    Tem seu abril,
    Tem como a fera
    Tem seu covil.

    Tem toda a planta
    Que o sol queimou
    Lagrima santa
    Que a orvalhou,
    E o passarinho
    Que hontem nasceu
    Lá tem seu ninho
    Que a mãi lhe deu.

*DE NOUTE*

A João de Deus

Elle vinha da neve, dos trabalhos
Violentos, custosos, da enxada;
Cantando a meia voz pelos atalhos.

A mulher loura, infeliz, resignada,
Cosia junto á luz. O rijo vento
Batia contra a porta mal fechada.

Ao pé havia um Christo, um ramo bento,
E uma estampa da Virgem, colorida,
Cheia de magoa olhando o firmamento.

Uma banca de pinho, mal sustida,
Vacillante nos pés, um candieiro;
Companheiros d'aquella negra vida.

*A Poezia do Outomno*

Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
Nos longes d'agoa... Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poezia escorre
E os bardos, a sonhar, molham a penna!

Ao longe, os rios de agoas prateadas
Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
São como estradas liquidas, e as estradas
Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
O chale pedem a quem vae passando...
E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
As lavandiscas noivam piando, piando!

Ao Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de Marialva

_Ao Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de Marialva, com quem
se tinha encontrado o A. na Caza em que estava o Embaixador de
Marrocos_.

Na Quinta da Praia clama,
Que lhe tireis a Cadeira
Hum triste, que quarta feira
Comvosco esteve em Moirama:
Se a Estrella, que a Vós o chama,
Não lhe abranda os seus destinos,
Torna para os Marroquinos;
Porque, agoiros por agoiros,
Antes cativo de Moiros,
Do que Mestre de Meninos.

*Vae victis*

(_Struggle for life_)

      Rasga sacrilego a amplidão celeste
      Um milhafre com azas pardacentas
      E a cotovia harmoniosa investe
      Armando as garras torpes e cruentas.

      Negro como o lethargo do cypreste,
      Rosna o vento nas franças macillentas,
      O sol dardeja n'um pallor agreste
      Que enthusiasma as nuvens corpolentas.

      A luz crua p'lo espaço se derrama,
      Engrossam os trovões em alcateia,
      Rutila do corisco a alegre flamma.

Ponto final (N'UM ALBUM)

Pediste-me um soneto delicado,
Exquisito, gentil, galanteador,
Feito com versos d'oiro e cravejado
Com rimas de finissimo lavor.

Ora eu, confesso aqui o meu peccado,
Nunca tive feição de trovador,
Acho o lyrismo d'album requintado,
Banal, elogioso, sem valor.

Aqui me tens; jámais falto ás promessas.
Exijo, pois, de ti que não esqueças,
Em troca, filha, este pedido meu:

Que para ennobreceres o soneto,
Venhas fechar o ultimo tercetto
--Com o ponto final d'um beijo teu.

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