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C.A. Aldegalega "Multiverso"

15.00€ IVA incluído

Livro.

PFC.

2021.

Preço: 14.15€

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Olá a todos.

O meu livro Multiverso está à venda, e gostaria de partilhar convosco o seu prefácio, de Maria Leonor Nunes (JL). 

 

Prefácio Multiverso

 

Por certo não haverá evidência científica que o permita afirmar e desconheço estudos e dissertações sobre o assunto. Porém, atrevo-me a dizer que haverá na adolescência uma espécie de predisposição da memória para aprender poemas de cor. Ao abrigo desta convicção, posso tomar-me como estudo de caso, pois andava por esses anos quando me aconteceu decorar alguns poemas inteiros ou versos avulsos, de Sebastião da Gama, José Gomes Ferreira, Sophia de Mello Breyner, Florbela Espanca, Manuel da Fonseca. Não sei porque os decorava, tão-pouco o propósito ou a utilidade vislumbrável. Talvez por espanto, pura alegria diante das palavras. Seja como for, esses são os únicos poemas que ainda sei de cor e que sempre viveram na minha companhia. E, entre eles, também um verso da autora deste livro.

Guardo uma lembrança nítida do momento em que o ouvi. Estávamos no anfiteatro do Liceu D. Filipa de Lencastre, numa aula de português, não recordo de que ano. Sei que era da professora Sara Malato, que nos estimulava a escrita em aulas que eram um verdadeiro gesto poético. Podíamos abrir a porta da sala de aula e deparar com dezenas de folhas secas pelo chão, nas mesas, ou um arco-íris pintado a toda a largura do quadro, para criar um ambiente propício, uma experiência imersiva, como hoje diríamos. Ela punha-nos a escrever a mote de vários poemas que nos lia antes de nos deixar a sós com o papel e as palavras, durante uma hora. Na aula seguinte trazia anotações nos nossos escritos, uma ou duas frases que fossem, e dizia em voz alta os melhores. Nessa manhã, leu: “Alguém derramou prata no céu”. Era o início de um luminoso poema da Célia, minha amiga de infância, em rigor quase irmãs, vizinhas a um lance de escadas, só com uma dúzia de degraus de permeio. Esse verso ficou-me no ouvido. Até hoje. E também a certeza de que um dia ela iria publicar livros de poemas. Finalmente, chegou esse dia. E Multiverso é o seu livro de estreia na poesia.

Muitos anos passaram sobre esse arroubo lírico da adolescência e, naturalmente, a voz poética que agora se revela é diversa, não perscrutadora de um prateado luar no firmamento, mas observadora do que ocorre, na Terra, corpo a corpo com o real quotidiano que interpela. No entanto, há no exercício da forma poética, na competência da linguagem da poesia que agora se dá a conhecer a ressonância desse dom da escrita que se anunciava na juventude.

Também mesmo sem evidência de qualquer espécie, arrisco dizer que certamente a Célia tem muita poesia e ficção escrita na gaveta, nas pastas, no computador ou mesmo algures na “nuvem”. E é curioso que o confinamento a que a crise pandémica nos forçou tenha ajudado a desconfinar esta poesia.

Farta literatura, aliás, foi já escrita sobre pestes, ao correr dos séculos, ou a elas alude. E, desta feita, escreveu-se muito também sobre a pandemia de covid-19, os dias fechados em casa, o que se via da janela de cada um, nas redes sociais, em diários, nos jornais. Multiverso foi, igualmente, escrito durante o primeiro confinamento, mas não se circunscreve à descrição de um tempo excepcional, da cidade deserta ou do medo e da angústia do fechamento. É um registo que a um tempo interroga a existência, a vida e a morte, a relação com o Outro, a desigualdade, o curso do mundo, por vezes com um traço de acutilante ironia. “Ao trigésimo oitavo dia Me enfado/ Me enfronho/ Me descomponho/moderadamente, suponho (…) /escapa-se do vírus, mas não da mesmice/Dos enfadonhos/Dos abrunhos/ Dos abafadores de sonhos”, diz num poema. E noutro: “Nunca pensei que fosse assinalável/dia em que saísse para andar de Metro”.

Multiverso é, de alguma maneira, um livro escrito no reverso da pandemia. Noutro passo, escreve a autora: “E cada troço de mim/ se reverteu num sem-fim/ reconheço em novo alento o retorno de outro tempo/ quem sabe relembro agora/ velho talento de outrora”.

Felizmente não se quedou pela lembrança; em sentido inverso, passou dos actos às palavras: “Tenho agora permanente/ folha aberta branca e pronta/ caso escrever seja urgente/ Empreendo mais que nunca neste lugar multiverso/ íntima do pensar desperto/ porfio o revés do esquecimento, em verso”.

Uma urgência de escrever que convoca agora a urgência dos leitores, para descobrir, frente e verso, de uma poesia singular e do tempo que vivemos, transverso de sentidos.

 

Maria Leonor Nunes