A poesia voa

Deixei-me perder
No rio da incerteza
Agora no meu ser
Reina a tristeza

Navego num caminho
Sem princípio nem fim
Completamente sozinho
Espero-te em mim

Memórias levadas
Pela espuma da saudade
Foram apagadas
Desta triste realidade

Vejo-te voar
Pelas nuvens fora
Querendo-te agarrar
Este ser que te adora.

*IDYLIO D'ALDEIA*

Oh! que harmonia!
      Cadente s'esvoaça pela fresta
      D'um visinho postigo!
    (Hostia d'ouro)

Não sei que ha que me impelle
Para o teu escuro olhar!...
É mais branca a tua pelle,
Do que o linho de fiar!

É tua boca um botão,
E o teu riso a lua nova;--
Quem me dera ter na cova
Os _ais_ do teu coração!

Mal podes saber o gosto
Que tive da vez primeira
Que te avistei, ao sol posto,
Debaixo d'esta amoreira!

Confissão d'uma rapariga feia (INCOMPLETA)

    Ha raparigas n'este mundo,
    Ha raparigas que são feias,
    Mas nenhuma tanto como eu.
    De mim tenho nojo profundo,
    Ciumes do Sol, das luas cheias,
    Que vão tão lindas pelo céo!

    Nos arraiaes, nas romarias,
    Adelaides, Joannas, Marias,
    Todas tem par, mas menos eu.
    Todas bailam, rindo e cantando,
    E eu fico-me a olhal-as scismando
    Na sorte que o Senhor me deu!

*CONFISSÃO A UMA VIOLETA*

Eu confesso-me a ti, doce flor delicada!
Recolhida, modesta, e sol da singeleza,
Das vezes que atravez da verde natureza
Fiz soar com orgulho a bulha do meu nada!

Em vez de amar a vida humilde, chã, callada,
Do sabio estoico e são, exemplo d'inteireza,
Quantas vezes cuspi no Justo e na Belleza;
E cri-me o Fogo e a Luz da géração creada!

Orgulho! orgulho vão! Vaidade e mais vaidade!
Como disse o rei sabio e justo á claridade
Dos astros da Judea e ao gyro dos planetas!...

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