Ruína
Autor: Federico García... on Thursday, 24 January 2013Sem encontrar-se.
Sem encontrar-se.
Chegas sem aviso,
vens por onde já não te espero,
vestido de um tempo que a saudade matou...
desventras-me as emoções,
e eu em promessas e fascínios me doo,
flutuas sobre os véus da minha alma,
e sem que te peça
dás-me de provar o teu veneno,
que me mata pouco a pouco
de tanto querer viver-te...
algemo-me a ti no abismo dos abraços,
na tormenta dos beijos,
no quebranto do olhar...
tu conheces-me mas eu de ti nada sei,
sinto-te apenas...
A Pedro Jacome Corrêa
Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
............................................
Porque é que te odeiam os homens se os levas
A um mundo melhor?
Ó velha hospedeira da aldeia do nada,
Tenho as malas promptas, vou breve partir.
Prepara-me um quarto na tua pousada
Que tenha a janella para o sul voltada
E fontes á roda para eu dormir...
Podesse eu junto a mim--eternamente!--
Sentir roçar, meu bem! o teu vestido
E ó ventura! o teu bafo enfebrecido,
Teu doce olhar e o teu sorrir doente!
Caia do monte o cedro! a grande molle!
Que feneça a _herva prata_ lá no val--
Que me importa!--e qual é meu grande mal
Que morra o cedro, e a planta s'estiole!...
Mas tu, meu bem! mais bella que a _herva prata_
Banhada pelo orvalho transparente...
Não quero que te vás de mim, ingrata,
--Nem teu olhar, nem teu sorrir doente!
chegam já nuas ao meu corpo,
vestidas apenas de desejo,
essas mãos onde eu vejo,
o meu mundo remexer...
mãos que falam,
mãos que calam,
mãos que sabem tão bem ler,
as vontades do meu corpo,
que a boca não quer dizer...
Convencem os meus sentidos,
a entregar-se à paixão,
quando firmemente me tocam,
que deliciosa sensação...
O mundo vestiu-se de noite
eu de ti me vesti...
a lua entregou-se ao céu
e eu entreguei-me a ti...
por entre a escuridão lá fora
a vida se ia perdendo...
entre os teus braços, meu amor
para a vida eu ia nascendo...
refugiada em teu corpo
a madrugada espiava...
o desejo que corria louco
e que a pele incendiava...