recados avulsos

A PALAVRA MALDITA

é uma palavra que foge ao protocolo esticando-se até que uma lágrima irrompa.

A PALESTRA DEMORADA

os anseios dum humilde arrazoador desafiam o arquiteto deste abominável lugar.

A PARÁFRASE ICONOCLASTA

ultrapasso o centro dos conflitos, recuo até às circunstâncias injuriosas, descubro a essência do homem grotesco.

A PARÓDIA DESCOMUNAL

li os relatórios de pessoas que se abrigaram em covis de prostitutas.

A PENUMBRA EXATA

 a crueldade arrastou o quarto para a rua e a rua para longe da residência maternal.

Oceano de Certezas incertas

Como é incerta esta noite que em mim mora Um Oceano de certezas incertas inunda minha essência Eu bebo trago a trago estas nevoas tenebrosas inquisidoras Perturbantes na sua voraz subtilea na qual me quero deixar envolver Um pendulo dourado e gigante acorda minha lucidez nublada com sua cadencia Ao ritmo de quem querendo falar tanto se cala Esvaindo-se de esforço repartido em mil encruzilhadas De inumeras crenças desacreditadas Passo a passo lentamente vou avançando Convictamente segura de que cada passo que dou pode ser um retrocesso em risos ou em lágrimas pouco importa Assumo-me eu própr

recados avulsos

A MONDA CULTURAL

o trilho, expurgado de mensagens angustiosas, é hoje um passeio de cultura e ensinamento.

A PALAVRA AUSTERA

galga a cancela do medo afastando o nevoeiro que impede a razão.

A PALAVRA BISONHA

é uma palavra liberta dos beijos repenicados e dos tratos ciumentos.

A PALAVRA CINZENTA

a palavra descoberta por um mendigo ao agitar o seu regaço.

poemas vários

A LUTA CONTÍNUA

o rescaldo duma guerra que abre os portões da lassitude aos belicosos e faz emergir os garotos que a seguem.

A MÁCULA TRANSVERTIDA

possuo tudo aquilo que as transfusões excitaram nos momentos aviltantes da minha cobardia.

A MÚSICA RURAL

os artefactos que a pobreza transforma em cânticos recitados nos serões tradicionais.

A MOAGEM FRENÉTICA

avista-se um recreio dos últimos patamares da minha biografia.

 

Feliz entrega

Sim te disse
Um Sim de trovões e nuvens carregadas com quedas colossais em cataratas de fogo

Mil abrigos por pinhascos de rasgar a pele
Tantas flores por abrir em veredas de horror

É em estranheza que se vislumbram borboletas belas borboletas de asas famintas
E ainda envoltas em teias emaranhadas de gritos e desesperos inocentes em negros lenços brancos acenando

Perante olhares de mentirosas verdades cosinhadas em lime brando

Tantos silêncios gritos surdos de bravura covarde

PATRÍCIA

Daquela que meu riso exigia,
Que a luz da ternura refletia
Não vou me esquecer!
Por mais que o tempo tente levar
O esplendor que eu via em seu olhar,
Irei sempre o ter!

Em minha mocidade plangente
Onde na aurora da estrada ardente
Tão cedo morri,
Perdido entre as vagas da existência...
Servo do desgosto e da indolência,
Eu a conheci.

RECADOS AVULSOS

A GAIVOTA PERENE

os violinos são rejeitados pelos tumultuosos povos que se abastecem de sermões.

A GUERRILHA URBANA

o chão vomitado da praça onde os mancebos agitaram estandartes cintilantes.

A HARPA FLUIDA

haja uma revolução onde não entrem militares nem os portadores duma arrogância que perfure a cerca dos costumes.

A IGNOTA ÍNSULA

o contacto do esperma com o rosto desfigurado duma mulher em cima dum estrado onde arremete a tirania.

A LÓGICA FURIBUNDA

Perder-te sem conta

Passo por onde te vi,
Naquela ultima vez,
Desde aí não vivi,
Não acredito no que a vida te fez.
São demasiadas as recordações,
Que vivemos lado a lado,
E sei que em todas as encarnações,
Ninguém foi tão amado.
Choro a tua perda,
Sofro tanto com a tua ausência,
E embora não entenda,
Tento conter a tua essência.
Vou embora,
Em busca de algo mais,
Só espero que agora,
Te possa seguir para onde vais.

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