NO OUTRO MUNDO

Ao voltares um dia, anjo loiro,
Meu tesoiro, ao teu berço divino,
E eu a tua espera lá estiver,
Verás que em tua existência rara,
Não te fui um amigo qualquer;
E que, nos meus anos tão soturnos,
Foste mais que uma bela mulher!

Sem sofrer nos cismares noturnos
Esta ausência cruel que me foste;
Por esperar teu sutil retorno,
Sei que vou sorrir eternamente,
Como antes, ao teu lado, e essas lágrimas
Serão extintas na nova terra.

Eu enrolo o bigode

Eu enrolo o bigode
E os problemas passam.
Não é para quem pode,
É para os que se acham,
Perdidos, na imensidão
Do pensamento que foca em nada.

Tormento? A alma acabada, solidão?
São nada
Se comparada a obra e a criação...

A alma não é pequena
E valerá, com certeza, a pena,
Mas a vida é uma obra, à partida, comprida
E a criação faz-se dia à dia.

Tormentos?
Que fiquem presos a eles
Aqueles
Que preferem deles aos momentos.

Rui Correia

Há um Povo

Há um Povo

Há um povo silencioso que não faz barulho pra não incomodar os barulhentos capitalistas. Pois os barulhentos capitalistas fazem guerra com qualquer povo que faça barulho. Pois fazer barulho é a natureza dos capitalistas sociopatas, desconectados da natureza que os cerca, e da própria natureza do homem. E no silêncio da floresta, há um povo. Silencioso sim, mas há um povo.

Charles Silva

Um Poeta

Um poeta não fala de amor, fala do vento.

Não fala de dor, fala da chuva.

Não fala do medo, fala do frio.

Um poeta não fala.

Respira, sussurra...

 

Um poeta não tem alegria, não chora.

Um poeta não sente depressão, não sente.

Um poeta não fala a verdade, não mente.

Um poeta não fala...

 

Um poeta não tem palavras, tem gestos.

Não tem história, tem contos.

Não tem vírgulas, tem pontos.

Não pergunta, exclama.

Não lê, declama...

 

Um poeta não declara, supõe.

SOLTA AS TUAS LÁGRIMAS

SOLTA AS TUAS LÁGRIMAS

Uma lágrima de dor
Solta-se e rola na face...
De efémero esplendor,
Morre no instante em que nasce.

A lágrima espelha amor
Mesmo que usada em disfarce...
O sentimento é a cor
Com que o homem quer pintar-se.

O pranto consome o ser
E lições há que aprender:
Alma e corpo vão às aulas.

Para a vida ser um feito,
Lágrimas presas no peito,
Jamais!... Há que libertá-las!

20/04/2008, Henricabilio

Quando falta a inspiração

 

Quando falta a inspiração

Para um poema compor

Resta a árdua solução

De versar com o suor.

Unir a imaginação

A um metódico labor

Para tecer a canção.

 

O poema é trabalhado

De modo racional

Se não é poema inspirado

Falta a magia natural.

Embora metrificado

O verso é superficial

Leitor não fica encantado.

 

Neste difícil momento

Poeta deve recorrer

Ao próprio pensamento

Para ter algo a escrever.

E assim atingir o intento

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