Agosto

Em Agosto
A mosca teimosa que não desgruda
a pele suada recetiva,
o calor e pouca sorte.
Uma osga atarefada na parede de cal
o vento quente
e ainda nem é meia noite.
Os cães que ladram ao pio da coruja
será sorte
 ou anuncio de morte!
O grilo voador passou pela janela
é noite de cante e nem o vejo
é paisagem quente e bela
é de certeza alentejo!

Abismo

Cambaleio na fortaleza da fraqueza,

Decreto morte na vida,

Recordo-me da Primavera perdida.

 

Sou a Primavera que tudo menos flor espera.

Sou Verão que tudo menos calor aguarda.

Talvez seja meio Outono despindo a minha alma,

Talvez seja meio Inverno tirando a nódoa deste Inferno.

Centenas de anjos perdidos nunca me poderão amparar,

Nem mil estações unidas.

Pois o abismo é a minha sina.

 

Perdi a voz e o perdão,

A dor mestre esmaga este coração,

Que um dia ficou perdido naquela constelação.

TEU AMANHECER

Que assim seja, minha criança distraída
Numa ínvia quadra, onde o mistério é soberano,
E, que não reine em teu cantar vigor profano
A iludir, como dos mares esta acre vida.

Bela sereia cuja nota suspirosa
Guarda segredos que nos põe tão sonhadores,
Pobres mortais escravizados p`los amores,
Eis que um dia não serás mais desdenhosa.

Quem sabe quando? Nada pode-se colher
Nas paragens desta ideia de áurea ventura,
Quando eu espreitar-te risonha na natura,
Dentro em teus olhos resplendendo o amanhecer.

Pintura natural

          Pintura natural

Desceu das serranias intenso odor.

Trouxe-o a suave brisa da tardinha.

Veio do rosmaninho que está em flor,

Aroma mais exaltado p'la noitinha !

 

Mas ali, num quintal de verde intenso,

Sobressai amarelo do jasmim !

Cresceu frondoso, vigoroso, imenso

Faz sombra ao roseiral do meu jardim !

 

E lá longe, vê-se um extenso prado

Animado de lilases desmaiados;

Cheio de manjerona-brava e cardo,

Lançam ténuas fragâncias! Disfarçadas !

 

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