Perseverança do dia. Caso 06.

P.D. Caso 6.
 
O pivete tem 87 anos, sexo, impossível. A barba longa denota a sabedoria e a qualidade de sua virtude, o desleixo da decadência em plena glória. O semblante ponderado guarda os segredos dos ideais palpáveis entre as rugas, entre as diferenças flácidas e os vales circunscritos sobre a decomposição de sua vida. As machas e a inversão de discordâncias criam os valores ásperos de quem perdeu tudo.
Me olha nos olhos. Como ousa ser tão comum e corromper a minha imagem ideal, a grandiosidade, a referência, aquilo que me inspira e motiva. Onde está aquela pessoa? Como respeitar um normal. Minha luz especial, meu sol, os nomes da história, meus deuses. Quem devo seguir se todos estão perdidos. Minha banal existência dissolve sem a esperança de sua grandeza, significância, razão. O que faço agora? Eu devo ocupar o lugar vazio de meu mestre? Mas não serei também uma farsa? Não responda, tenho muito a dizer.
A obediência à submissão, no instinto dos cantos comuto a oficina da miséria. Somos mentalmente onívoros, podemos nos alimentar de qualquer crença. Podemos viver acreditando em uma coisa só, ou comendo o que quisermos; podemos ter um fino e esnobe paladar, comer o que estiver disponível ou ser eclético. O mais difícil é entender que tudo o que comemos vira o mesmo, estimula e nutre do mesmo modo, mesmo que a fé energize, particularmente, um fracasso ou outro nos bastidores refinados da superioridade das bestas. À graça é que, ao contrário de uma alimentação formal, é possível comer e não se nutrir em fé, pode-se chamar isso de esclarecimento. De mediação vingativa e ardilosa de critérios na dinâmica do poder. Responda, qual o caráter da justiça neste apaziguamento da inerência?
A crítica na crítica costuma dizer que basta acreditar. Homens de fé. Esse joguinho regrado que busca dizer o que é o quebra cabeça, o que são as peças e como jogar, é vão, cada um joga como quiser e aniquila o outro como quiser. Exatamente por isso que o jogo é o que é, quem joga sempre perde, quem joga sempre vira refém das regras, quem sabe que não existe vitória ou derrota, que molda a si para não ser, consegue deixar de jogar, ou mesmo jogar com liberdade mais real dentro da ilusão. O contrato do esclarecimento é a fé em que? A fé em código, no código e pelo código. Ali jaz a decomposição da fraqueza rica, que é supérflua em luta, mas predominante em propagação de traços sobrepostos. Essa é a sua natureza de força e senioridade.
Tolice jovem, decadência orgânica, isso é velhice aristocrática em funeral de sacerdote. Mas serei generoso e te conto o boato que ecoa. O presente é o privilégio dos ratos, no milagre da existência o que reina é o instante. Quando o passado era presente, e no presente é o presente do passado que, por sua vez, no futuro será presente do futuro no presente que sustenta qualquer presente futuro. Todo presente está presente em toda razão, sendo qualquer investigação passada ou futura, um presente constante e completo, assim como o jogo e os jogadores, ou mesmo as regras, a fé é constante e completa. Desde os raros que carregam as tochas as mãos, aos que na pira de luz, no lenho da noite, seguem o farol em movimento errante entre as rochas e a ressaca da maré. Para que? Para o presente, para o instante não outro que a fundamentação da realização dos desejos. Podem ser vícios da perspectiva da linguagem que oferecem com uma mão o que tiram com a outra. O que é muito melhor do que uma doutrina com intensão de sua ausência. A concentração de forças e energias se dá na repetição da diversidade.

 

Género: