Soneto

Mnemónica de Abraão

Mnemónica de Abraão em Canaã aventada,
Troveja a selva urbana embravecida.
Torvelinho, Betel. Enfim, a vida
Impele, propulsiona. Desterrada.

Clade d'Avalon(1), ruína, qual errata
À vista? E, só, em deserto amanhecida.
Ressurge-me no espaço-tempo a Vida
De mim, a Melusina mais abstracta.

Palingenesia embraia sob tais ventos,
Qual fiorde em tessituras desumanas
E laudativamente nos(2) reinvento

Música Sempiterna

Estrelas se apagam, sinfonias se terminam
Mares se acalmam e seus peixes adormecem
Além do horizonte muitos dias se anoitecem
Enquanto deste lado muitas horas se atrasam

Tantas luzes se apagam, tantas almas adormecem
Tantos sonhos se despertam tantas formas que se quebram
Tantos dedos que apontam tantas vozes que se calam
Tantas promessas proferidas e memórias que esquecem

<MOMENT>

    Dois olhares penetrantes, turvados!

    Duas bocas ardentes de desejo!...

    Ímpeto irresistível, forçado.

    <Momento> lindo! O brotar de um beijo!

 

    Esperado, desejado Momento!

    Único, sublime! Quase perfeito!

    Vibrante anunciar dum sentimento, t

    Que põe na pele o rubro do deleite!

 

    Que doce sensação! Tão benfazeja!

    É breve. Rápido se  esvaece.

    Mas ficará p'ra sempre em cada peito!

 

    Se pudesse dar matéria ao <Momento>,

A Morada da Fênix no Paraíso

 

Nesta terra em que pisa e repousa,

Saudade alguma jazerá dentro de teus olhos.

Aqui, passado e futuro são cautelosos

Dentro da morada da presente moça.

 

Tua solidão guiou-te até aqui.

Nem maiores e nem menores serão as dores

Quando tua alma viver o que já vivi.

 

Vamos. Apoie teus ouvidos nos arredores

Dos obeliscos que sustentam a alvorada.

Apenas hoje

Hoje vou conservar o gelo com o calor do sol,

cultivar a solidão da multidão para a multidão,

polemizar Godard com o inventivo Godard

 hoje vou desconsertar Foucault pelo próprio.

 

Hoje vou elogiar a lamúria, com lamúria,

metáforas com a expressão maior da figura.

Hoje vou sentir o amargor do puro mel,

gritar  em silêncio o clamor de uma sociedade.

 

Hoje vou contar as lágrimas vindouras,...

Quero a candura e a disciplina, fora da piscina

em piscinal competição, o maior competir é a vida.

 

À Bolina

"Deus fez-nos cheios de buracos na alma e o nosso dever é tapá-los todos para navegar."
Vergílio Ferreira

Nem Píramo nem Tisbe ou o pote d'ouro
Após o arco-íris, como combustível
Ou o declinante Hyperion do Keats crível
Qual gnose dum mirífico vindouro?

E nenhum barlavento haure fulgor
Ou estro, qual vão lirismo incognoscível.
Talvez o Endymion porque imarcescível,
Assim invicto em confluir ou a fé que for.

Pages