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*AS CATHEDRAES*

Como vos amo ver ó cathedraes sosinhas,
A recortar o azul das noutes constelladas!
Erguidos corucheus, mysticas andorinhas,
--Ó grandes cathedraes do sol ensanguentadas!

Como vos amo ver, pombas alvoroçadas!
Ogivas ideaes, anjos de puras linhas,
E ó criptas sem luz, aonde embalsamadas
Dormem de mãos em cruz as santas e as rainhas!

Em vão olhaes o Ceu sagradas epopeias!
Flores de renda e luz, d'incenso e aromas cheias,
Aves celestiaes banhadas da manhã!

Vaidade, Tudo Vaidade!

Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!

GASPAR

    Ora se não sei eu quem foi teu pai!
    Fidalgo: sei perfeitamente bem.
    O que eu não sei, Gaspar! é o que vem
    N'esta vida fazer quem já lá vai.

    Já se vê que é aos paes que a gente sái.
    Tal pai, tal filho; sim, duvída alguem
    Que um pai se é como o teu, homem de bem,
    Tu és homem de bem como teu pai?

    D'isto não ha quem possa duvidar.
    Mas queres um conselho que eu te dou?
    Não mexas n'isso... cala-te, Gaspar!

LYRA XXVIII.

Cupido tirando
Dos hombros a aljava,
N'um campo de flores
Contente brincava.

  E o corpo tenrinho
Depois enfadado,
Incauto reclina
Na relva do prado.

  Marilia formosa,
Que ao Deos conhecia,
Occulta espreitava
Quanto elle fazia.

  Mal julga que dorme
Se chega contente,
As armas lhe furta,
E o Deos a não sente.

  Os Faunos, mal virão
As armas roubadas,
Sahirão das grutas
Soltando rizadas.

CARTA: A ti, amavel Bandeira...

A ti, amavel Bandeira,
Partidista da Verdade,
E de quem tenho mil provas,
Que o és tambem da Amizade:

Que são Filozofo vives,
E o mesmo morrer protestas,
A' excepção de me dares
Bilhete de boas festas:

Tolentino firme amigo
Inda quando o Mundo caia,
E a quem obrigas a sêllo
Desde a rua da Atalaia,[13]

[Nota de rodapé 13: Onde tinhão morado havia muitos annos.]

Dezeja pura alegria,
Saûde, e muito vintem;
Dezeja-te tudo aquillo,
Que elle quasi nunca tem;

*O cão de bordo*

      A cerração é densa. O pobre hiate
      Sem leme desarvóra na refrega;
      Penetra na escotilha a onda céga,
      Alquebra-se o baixel no duro embate.

      A trovoada estala, a prôa abate;
      No escaler a maruja ao ceu se apéga,
      Este a vida infeliz surdo lhe nega,
      Que as lagrimas não bastam p'ra resgate!...

      Um cão hirsuto, magro, avermelhado,
      Com os olhos chorosos, flamejantes,
      Que brilham como negros diamantes

REFUGIO ULTIMO!

Deixa, Senhor, do mundo em que eu habito
                  A ti meu ser se evol'!...
      Tem jus aos ceus quem mede esse infinito
                  Que vae de sol a sol!...

      Sonhei na terra, amando-a muito e muito,
                  Novo Deus, nova lei;
      Mas foi, pura illusão, baldado intuito,
                  Comtigo só me achei!...

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