Amor

Mandei...

Hoje mandei recolher a lua,
apagar todas as estrelas do céu,
hoje eu quero ser tua,
sem que ninguém brilhe mais do que eu...
Hoje só eu vou reluzir,
dentro do teu olhar,
vou acender em ti a noite,
hoje serei o teu luar...

Meus beijos serão archotes,
convites ao teu prazer,
minhas mãos dois candelabros,
cientes do que fazer...
Saberei enfrentar o teu breu,
com a chama do meu amor,
esta noite, tu e eu,
daremos ao firmamento outra cor...

Bem dito...

Bem dito,
o acto irreflectido,
que conduz ao amor,
ele renuncia à razão,
fazendo ao corpo um favor...

Bem dito,
esse infortúnio,
do negar não poder,
o que não faz qualquer sentido,
mas nos enche de prazer...

Bem ditos,
tu e eu,
que nos unimos num só,
e reduzimos a distância,
a partículas de pó...

Bem dito,
cada momento,
que tua pele se junta à minha,
fazendo de ti meu rei,
e eu a tua rainha...

Fuga em Fernando Assis Pacheco - Amor nunca é trabalho leve

Os trabalhos de amor são os mais leves,
Por serem leves e adoráveis
É que se revelam os mais árduos deveres.

Os trabalhos de amor são os mais leves,
Foi graças a esta calúnia de um conselho
Que o infeliz amante tropeçou no seu ofício.

Os trabalhos de amor são os mais leves,
Pois quem assim pensa não sabe amar,
E o que o sabe parte para herdar uma eternidade.

Gaia

Aquando de um devaneio, olhei uma flor.
Tão jovem, tão cheia de vida que era,
Tão bela era a juventude coberta
Que era frágil. Cristal.

Mas o vento do Norte invejou-nos,
E irado te arrancou de mim...
Libertaste-te sem dor, és livre,
Livre de espalhar o teu pólen.

Melancólico fiquei desde então,
Até que algo me violou o rosto;
Eras tu, pétala do amor, voltaste.
Finalmente posso amar-te jovem.

Dançarina das labaredas

Ecoam e gritam harmoniosamente
Os tambores e as palmas, ritmados,
Cada um, pausados,
No seu tempo, combinados,
De crepúsculo até aurora,
E encantadas são fauna e flora.

Por brunas sonoras e feixes cegantes,
Somente uma chama arde o caminho:
Esta é a estrela do meu pergaminho,
Seduz-me ao tentado descaminho,
Pronta a me conduzir ao abismo
E lá dançamos na beira do sismo.

É SÓ MEU ESTE AMOR

Amo-te em voz baixa, sem retorno,
conto passos na rua do teu não.
No vidro embaciado moldo o teu nome,
desfaço-o, mas não do coração.

A casa é grande, cabe o meu transtorno,
os móveis já não me querem ouvir.
É tarde e o relógio esquece as horas,
só tua ausência insiste em repetir;
num eco que se perde no sem-fim,
é o silêncio vivo que mora em mim.

Volto da noite com as mãos vazias,
trago o perfume da chuva e cidade.
Ponho a chave na porta com cuidado,
como se tu dormisses na metade.

ERA VERMELHO

O rapaz, sangue em levante, 
Ela, o riso ao livre vento, 
Eram febre faiscante, 
Carne viva e rutilante,
Sem pesar no pensamento.

Vinha a febre da loucura
Sem saber o amanhã,
Mastigavam a ternura
Como fruta em polpa mura,
Como a brisa da manhã.

Era o golpe contra a sorte,
Só a fúria da alegria;
Ter o mundo, ter a sorte,
Num abraço, o laço forte
Que o amor fortalecia.

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