Amor

Lâmina floral

Ao som lírico d'um velho bardo
Desfilais por vossa maravilha,
Mi mui amada Senhor.

S'em vós enchentes sorri de prado
Digno de tais reachos d'olhos fervilha
Mi mui amada Senhor.

Mas ai! que logro ua fiada em tudo
Que dói, m'ei de rogar a partir a ilha
Mi mui amada Senhor.

Nem lagarto o fea quebrarom mi escudo
D'amores que nom senti nem por filha.
Mi mui amada Senhor.

Vosso mui belo rosto é meo amuleto amado
P'ra males calar e viver p'la armadilha
Mi mui amada Senhor.

Água bailarina que me contenta

Água bailarina que me contenta
O fervor de um desejo não concebido,
Onde teus passos sobre a lava
Revivem a minha cega retina.

Eleva-me a onde nenhuma alma
Jamais sonhou, mas outrora crava.
Uma, só uma e apenas uma
É a carnal tentação que me move...

O teu movimento, o teu toque
O teu sorriso e o teu esplendor,
Será real ou é só ilusão?
Ou solene sonho de conhaque?

Não, pois eu vi a tua diversão
Fogaz, evocadora de trovão,
E não cravo outra senão única
Mulher que me despertou.

Sinergia

Que mundo irreal e feio é esse
Onde sonhos e prazeres nascem no toque
Da pele e suscitam prazer austero?

Se a vida se tornar assim, não quero viver.
Não quero o fim dos meus dias num paraíso
Sem suor nem calos de firme rocha.

Quero construir, quero lutar e sentir dor,
Quero tudo o que me lembre do progresso
Adormecido para lá do por do sol.

O meu desejo é sobrevivência e fervor
Por um querer mais que tudo dos sonhos.
Pois a perfeição está no que podemos tocar.

O começo

Que renasçam as memórias mornas
Das cinzas de lembranças antiquadas
E pouco ardilosas à terra.

Que renasçam vontades chocantes
Aos que pouca luz agora têm
Em retinas cegas com umbras.

Que renasçam os desejos de um sonho
Tido em criança, uma jornada tão sã
Que domina montanhas e marés.

Que renasça o amor de uma prisão
De frio tão frio, uma corrente
Invernal e isolada do Céu.

Mas já renasceu em ti Ninfa.

Cresçamos, criarmos e renovemos
O que de arcaicos pensamentos
Permaneceu oculto e temido.

Às armas!

Desapeguei-me de catarses e eufemismos,
Das metáforas e sonetos, rochas num caminho
Ondulado designado a ser direto.

Faço-me justamente pelos meus punhos
Cobertos de vontade e desejo
Por um novo amanhã que acreditei não vir.

Se por dor não travo, por desaforos menos ainda,
Pois se a mim mesmo consegui sobreviver,
Nada é digno de me parar na demanda de te ver!

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