Intervalo

Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado —
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?

Verão

Deixe que o Sol de hoje queime tudo!

Refrate-se nos vidros

E vibre suas ondas de calor no asfalto

Que escolhemos para nos aprisionar

Numa irreal sensação de conforto

De cidade grande, moderna, chique…

 

Sol, arda!

Mostre-nos tua força!

Torna insuportável nossa vontade,

Nossa imensa vontade de fugir…

Nossa terrível covardia

Que nos torna viciados e pobres

E insanos;

Torra nossa última vontade de pensar!

 

Deixe que o calor sufoque!

Quem sabe dessa agonia

Sem Saber

E se a dúvida fosse a única esperança?

E se saber fosse uma ilusão?

Se a certeza fosse ultrapassada

E a verdade fosse a maior mentira?

 

E se só tivesse respostas, sem perguntas?

E a ignorância fosse a suprema sabedoria?

Se o tempo fosse obsoleto

E o instante, a eternidade?

 

Faz sentido aprender?

 

É mais feliz quem não sabe;

É mais lúcido quem se vicia

E se permite pertencer ao jorro

Torrencial, multicor, desuniforme

Desse belo diário de crônicas

Que corre entre nós

Trajetória

No princípio, um precipício

De onde eu estava, escuro

Confortável e quente

Fui expulso,

Fui exposto.

 

Era inquilino,

Era parasita

Era um existir, tive de vir a ser

 

Do precipício

Veio a luz

Então o ar e o som

E a agonia de então

 

Ser proprietário,

Ser hospedeiro

Sempre ter de ser

 

No meio, um labirinto

Multiforme, malformado

De onde eu estava, penumbroso

Confortável e fresco,

Fui expulso,

Fui exposto.

 

No canto

No meio do nada

Indefinido

Cercado de detalhes

Esquecido

Ilhado em lembranças

Frio

Congelado no tempo

Só…

 

Esperando o resgate

De sua companhia

Que me levará embora

De volta à vida.

Desgosto

Marco meu tempo em sonhos inacabados,

Em dias que parecem se repetir em desespero

Numa paródia de rotina de desigualdades.

Vivo. Deixando rastros fragmentados

Que alguém talvez reconstitua

Como querendo desvendar um crime.

 

Meu crime é perfeito

Primeiro sequestrei meus projetos

E os mantive em cárcere privado

Pensei até em pedir resgate…

Mas assassinei cada centavo sobrevivendo arduamente

Numa realidade cruel e mesquinha

 

Paguei altos subornos

Para manter-me no conforto fútil

Identidade

Ai de mim!

Só sei de mim

O que dizem por aí

Se nada dizem, como sei?

Então me rasgo e me exponho

Para que me vejam

E me digam quem sou

 

Eu mesmo não sei

Só digo que sei

O que dizem que sei

Às vezes me dizem que não sei

O que deveria saber

Mas é só o que me dizem

Que me tornam eu mesmo

Para mim e para todos

 

Mas acordo e não sei

Se como não sei

Se vivo não sei

Se existo e ajo e reajo;

Se opino não sei

Se quero não sei

Ser, sou…

Bem no natural

Bem no natural
(Mauro A Evaristo)

O mundo caminha dentro do caos,
Desordem física, financeira, moral
Todos em busca do ponto em comum
Sem ver, sentir, perceber respaldo algum.

Os pseudos bons fazendo o mal
Por aceitarem a ruindade como normal,
Civilizados sem entenderem a selvageria
Que toma conta dentro do dia a dia.

Já passamos da hora de acordar,
Abrir o Livro para se encontrar
Sentir a energia transcendental

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