Intervalo

Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado —
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem te disse tão cedo?

Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?

Onde

Onde estamos que não nos vemos mais?

Onde a poesia que jazia

Quente, viscosa e vital como o sangue

Escondeu-se que não lhe ouvimos

Nem o mais leve sussurro?

 

Em que imensidão estamos

Imersos, e cegos, e surdos

Alheios à prosa?

Perdidos, enfurnados no vazio…

Num imenso vazio repleto de poeira;

Resíduos de sentimentos não sentidos,

De palavras não expressas,

De risos virtuais.

Isolados e isolantes como se ninguém

Fosse alguém o bastante para nos merecer.

 

Agora

Cansaço

Desculpem se pareço desolado

É só cansaço

Que, às vezes, me embota

Desbotando toda a inspiração.

Às vezes me bloqueia

Restando apenas a respiração.

 

E sorver o ar também cansa

Por causa de tanta poluição

Que torna denso o pensamento

E fornece ideias meio tóxicas

Que entorpecem tanto a realidade

Quanto a fantasia.

 

E, no meio disso tudo,

Nada se salva;

Nem a alegria,

Nem a poesia

Que pulsam no meu sangue

Se retêm. Esvaem-se como poeira

O Preço da Poesia

Quando a gente encontra a palavra exata,

Aquela mesma que cabe direitinho

No cantinho que tem na nossa alma

No momento mais preciso,

Quando a gente nem sabia que estava lá…

Tem preço isso?

 

Quando a gente encontra a palavra exata,

Aquela mesma que conta direitinho

O que está acontecendo no mundo

No momento mais preciso,

Quando a gente tenta entender tudo…

Tem preço isso?

 

Quando a gente encontra a palavra exata,

Aquela mesma que consegue direitinho

Dores Que Não São Minhas

Sei sentir dores que não são minhas

Mas não as quero;

Sei me afogar em mares que nunca toquei

Sem sequer provar seu sal.

Sei fechar os olhos e ver a profunda escuridão

Ao meio-dia, em pleno verão

Enquanto tudo em volta queima e arde…

 

Mas também sei curar,

Sei sair da água e respirar.

Sei acender a luz e resplandecer.

E, como a morte não é um estado temporário,

Prefiro a perenidade da vida.

Os justos

Os justos
(Mauro A Evaristo)

O filho mais suco de fruta,
Político de atividades corruptas
São sempre os mais amados
Muitas vezes os justos são execrados.

Os colegas de trabalho mais sacanas
Por vezes são mais valorizados
Enquanto quem virtudes não proclama
Acaba ficando de lado.

Todos os aparentemente maus,
Verdadeiros agentes do caos
Se sobressaem e bem nesse viver,

Mas mesmo na desordem social
Tenho algo bom a lhe dizer:
Sorria! Existe poder infinito em você.

feradapoesia.blogspot.com

Curvas ABCs

Curvas ABCs
(Mauro A Evaristo)

Na logística de viver
Já empurrei muitas paleteiras,
Vivi em vão nas curvas ABCs
Me exaurindo de tanta canseira.

Já vi muitos nobres indo pra Dubai
Cuidando eu que o primeiro que entra
Seja também o primeiro que sai
Só não vi dó da dor que o povo aguenta.

Na logística do viver
Cuidei bem das curvas ABCs
Para chegar ao limite de chorar

Vendo nobres aumentando o sofrer
De quem só vive pra trabalhar
No sustento dos que vivem a sugar.

feradapoesia.blogspot.com

Pages