Geral

Dores Que Não São Minhas

Sei sentir dores que não são minhas

Mas não as quero;

Sei me afogar em mares que nunca toquei

Sem sequer provar seu sal.

Sei fechar os olhos e ver a profunda escuridão

Ao meio-dia, em pleno verão

Enquanto tudo em volta queima e arde…

 

Mas também sei curar,

Sei sair da água e respirar.

Sei acender a luz e resplandecer.

E, como a morte não é um estado temporário,

Prefiro a perenidade da vida.

Manias de Grandeza

Tenho manias de grandeza:

Dessas que, de tão grande,

Não caibo só em mim mesmo…

 

Amo para além de mim;

Trabalho mais do que devia

Quero tanto viver que nunca dá tempo

E me angustio!

 

De ler muitos livros,

De ouvir muitas músicas,

De abrir muitos risos,

Tenho sede.

 

De passear muitos campos,

De nadar muitas praias,

De deslumbrar muitas flores

Tenho fome.

 

 

Sonho para além de mim;

Durmo menos do que devia

Cidades Pequenas

Ainda hei de escrever crônicas

De cidades pequenas espalhadas pelo mundo

Onde hei de espalhar meus passos

Acostumados à cidade grande.

 

Ainda hei de engrandecer os detalhes

De cidades pequenas espalhadas pelo mundo

Onde hei de espalhar meus olhos

Acostumados a grandezas de cidades.

 

Ainda hei de guardar os perfumes

De cidades pequenas espalhadas pelo mundo

Onde hei de espalhar meu nariz

Acostumado a (falta de) cheiro de cidade grande.

Verão

Deixe que o Sol de hoje queime tudo!

Refrate-se nos vidros

E vibre suas ondas de calor no asfalto

Que escolhemos para nos aprisionar

Numa irreal sensação de conforto

De cidade grande, moderna, chique…

 

Sol, arda!

Mostre-nos tua força!

Torna insuportável nossa vontade,

Nossa imensa vontade de fugir…

Nossa terrível covardia

Que nos torna viciados e pobres

E insanos;

Torra nossa última vontade de pensar!

 

Deixe que o calor sufoque!

Quem sabe dessa agonia

Sem Saber

E se a dúvida fosse a única esperança?

E se saber fosse uma ilusão?

Se a certeza fosse ultrapassada

E a verdade fosse a maior mentira?

 

E se só tivesse respostas, sem perguntas?

E a ignorância fosse a suprema sabedoria?

Se o tempo fosse obsoleto

E o instante, a eternidade?

 

Faz sentido aprender?

 

É mais feliz quem não sabe;

É mais lúcido quem se vicia

E se permite pertencer ao jorro

Torrencial, multicor, desuniforme

Desse belo diário de crônicas

Que corre entre nós

Identidade

Ai de mim!

Só sei de mim

O que dizem por aí

Se nada dizem, como sei?

Então me rasgo e me exponho

Para que me vejam

E me digam quem sou

 

Eu mesmo não sei

Só digo que sei

O que dizem que sei

Às vezes me dizem que não sei

O que deveria saber

Mas é só o que me dizem

Que me tornam eu mesmo

Para mim e para todos

 

Mas acordo e não sei

Se como não sei

Se vivo não sei

Se existo e ajo e reajo;

Se opino não sei

Se quero não sei

Ser, sou…

Cá e Lá

Cá estou eu;

Às vezes chego até ali,

Me acerco, às vezes, de acolá…

Mas lá?

Para mim não há lá!

Para mim, que sou de cá.

 

De cá olho para lá

Com olhinhos espichados,

Com olhinhos apertados

Como tentasse ver claramente

O que de lá aparece para mim, enevoado

Envolto numa bruma que torna lá irreal

Que se como se lá fosse uma ilusão,

Um sonho para quem é de cá.

 

Ponte não há

Senão aérea,

Senão etérea, cyberficial

Que conecte cá e lá

Palavras Peraltas

Às vezes, escrever

É brincar de pique com as palavras;

Elas parecem peixinhos escorregando na água

E minhas mãos nuas não as agarram.

Então as deixo nadar

E apenas observo sua dança brincalhona

 

Quantas realidade não dizem?

Quantas ficções não constroem?

Ah, palavrinhas peraltas!

Como vos amo, de todo o coração!

 

Desisto de escrever!

Quando quiserem se deixar pegar,

Estarei por aqui,

Esperando e observando com (des)atenção.

Pedacinhos

Um dedinho de prosa;

Um ouvido amigo;

Um ombro disponível

Um colo…

 

São pequenos pedaços

Que desapegam de mim

E vagam por aí

Me espalhando por vários lugares

Que perpetuarão minha lembrança

 

Uma mão que aperta, que acena

Minha boca que diz, que beija

Meu olho que vê, que atenta

Um peito que aconchega

 

São punhados de farelo

Que desapegam de mim

E vagam por aí

Me espalhando por vários lugares

Como temperos

Que tornarão a vida saborosa.

Teu Riso

Ri;

Tua graça pura encanta

Te faz bela e doce

Luminosa e fascinante!

 

Ri;

Tua alegria me contenta

Serena e simples

Expansiva e radiante.

 

Ri;

Teu júbilo inocente

Tão profundo e perene

Me inspira suavemente

 

Ri;

Que teu riso gostoso

Me faz sempre ditoso!

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