Perseverança do dia. Caso 13.

P.D. Caso 13.
 
A cachopa era mestiça, gostava de laços e rendas. Sapatos de salto baixo, presilhas no cabelo quase longo, quase negro.
Tilintou os brincos de minério polido, deslizou os dedos pelo contorno do queixo e recostou dobrando as pernas.
Sabe/Então. Pronunciamos ao mesmo tempo. Não, por favor, pode falar.
Ela ponderou alguns segundos, esticou o braço e apontou para mim. Sua voz soava calorosa e sarcástica.
Por que preciso seguir as mesmas regras. Fazer o mesmo que as pessoas fazem. Estudar ou me considerar alguma coisa exatamente do mesmo modo que as pessoas querem que seja considerado... estudado, pensado e todos os outros modos de condicionamento intelectual. Explica-se que é assim que funciona, que tal e tal coisa dá em tal e tal coisa, e que podemos criticar de tal e tal jeito para tentar tal e tal solução. Caso contrário, não está fazendo o que fazemos, não é um de nós. Prefiro não ser, mas se quiser, pode ser o que sou, a porta está sempre aberta.
Sabe, isso recai no vinculo, uma expressão maior do vazio em face da contingência.
Sim, eu elogio a disciplina da natureza. Essa severidade constante do íntimo.
Acha que o espectador é o estado vital que se livra do escrúpulo, do ódio, da existência?
E assim ele existe não é. Um hostil ao verdadeiro e ao justo, que vive em tal mundo outro mundo do outro no mundo outro mundo.
Aprofunde a reflexão. Se entregue.
As pessoas não sabem o que as coisas são, elas não sabem o significado das coisas, elas não sabem o valor das coisas, elas escolhem o que as coisas são, significam e valem. Elas escolhem dentre aquilo que lhes convém, elas escolhem dentre aquilo que lhes é possível, dentre aquilo que lhes é permitido e daquilo que lhes é melhor ou satisfaz. Mas continuam não sabendo, não significando e não valendo. Apenas estão, não são. Dizer sobre certo e errado, melhor ou pior, nome, classificação, conceito, razão ou o que quer que seja, é escolher, mesmo que seja uma escolha dissolvida, diluída, impessoal e sem identidade própria para aquele que supostamente está escolhendo. Mesmo a escolha, é uma escolha permitida, mas ela também não tem significado, valor ou identidade de ser. Ela está de modo pertinente junto a todas as outras pertinências que por ventura não foram escolhidas, ou mesmo foram; sendo que elas estão em grau de equivalência com aquela que acabou por estar em destaque; e mesmo que estejam sob vigência oculta, estão intrincadamente manifestas junto ao contraste. E se observadas de perto, perderam qualquer fronteira imaginável e se mostraram como únicas, mesmo que em um modo único onde não existe qualquer permanência de unidade, pois são diversas e totais, presentes e dinâmicas. Onde a escolha é uma faceta do todo no todo, onde o todo é uma manifestação da cadencia de sua multiplicidade interconectada que desponta em todos os lados para fazer todos os nós.
Faça elevar o palpável, seus meios, antecedentes? É meta e soma, intuição, contemplação, meio no fim e fim no meio.
Queres a gênese? Lance os dados da promessa, a medida do valor. A relação profana da arquitetura do conhecimento, o labirinto como modelo, nossa alma.
Não acha que o passo no martírio é orgulho?
O cru apetite que sacia, deleita, esconde a fome, o abandono da pele. É uma descama em felicidade. Uso o mundo e sou usada por ele. Não quero que concorde, não pretendo lhe ser útil. Já sou. O mundo me é útil e sou útil ao mundo. No ódio, no amor, mesmo no desprezo ou no esquecimento, a peleja maiúscula no celeste que brota. Se queres a sabotagem a um lapso, sempre presente, que se detém, conseguirá.

 

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