Gótico

ARMADURA

 

 

i.

a sutura do entardecer

consome minhas urgências

com a cáustica volúpia

de degredo ou de dano

ii.

o que não é forma ondulada

me remete à constância

das linhas adivinhadas

que se escoam sem discordância

iii.

minha inadiável iminência

também não se dissolve

como tempestade que tarda

clamando por seus relâmpagos

iv.

desse combalido ditame   

me protege cromada couraça

recobrindo minha pele e espírito

com indevassável membrana

 

O vento das cinzas

Até quando os ventos me jogarão?
Não tenho ideia ao que leva isso
Prostro mais um dia — clarão:
Estou cego pela mentira. Omisso,
Não da vida ou da sorte incerta;
A dona da tempestade bruma,
Dos júbilos da majestade serva 
E Rainha da rosa murcha:
Senhorita Morte me regojize  
Um último desejo material:
Incinerar meu corpo que exprime
O melodrama da vida lacrimal.
Minha existência voará ao poço

Pareidolia

Vejo sombras nos arames
Tateio enforcamento na luz
Querem costurar meus ossos
Sob os pecados da carne

Pisco uma ou duas vezes 
E lá fito Saturno encarando 
Sou tão megalomaníaco 
Que acredito ser um lunático

O Deus dos fins a violar-me
Quem dera se fosse real 
Deve ser a autoconfirmação
Da minha virtude desleal 

 

Aqueles que pertencem à noite

Um espírito escuro está rondando
Os degraus do local insólito
Rugidos melindrosos crescem aos ouvidos
O inferno quer devorar a maldita alma

Neste hospício as vozes me enlouquecem
Não há nada além dos cantos que fenecem
Obscura chance de fugir, torrente sorte
Enclausurada na parede torpe

Indriso — I

Imortalidade da alma sórdida
É o recurso daquele esquecido
Desistiu da carne sofrida

Porque viveu em inútil suplício
Perambula fora do caixão
Pois, foi encontrado morto no sótão

A realidade de uma vida sequer
vivida, ou uma história de ficção qualquer

Costureira

A costureira mais voraz
Com sua agulha tão profunda
Espeta segredos das pessoas
Ela dá uma nova roupagem
Para a mentira adornada
Estética mais bela e fugaz
Para o homem verdadeiro
Esquecido em solitude
O sangue pinga no véu
Impetuosamente ela
Entende: para a virtude
Sorrir, manchas devem
Existir

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